Angel Eyes – ver o mundo sem olhos, com paixão

June 10 2009 No Commented

Uma vez fizeram-me uma pergunta tola. Tão tola que a minha reacção foi igualmente tola. Ou pateta, se quiserem. Eu nunca deveria ter respondido a nenhuma pergunta daquele teor, mas era uma pergunta tão tola que os meus reflexos chegaram à frente da razão e eu respondi, feito palerma. Perguntaram-me qual era a música romântica de que eu mais gostava, imaginem. E eu respondi. Ainda não tinha processado a devida dose de lucidez e já a palermice marcava um golo. Se tivesse a calma suficiente, perguntava logo de volta o que era isso da música romântica. Música da época Romântica? Ou música igual à daquele rapaz que aparece todos os dias em canais diferentes de televisão e depois de fechado o ciclo volta outra vez a aparecer nos mesmos canais e nos mesmos programas a cantarolar as mesmas músicas? Ou ainda a música que algumas pessoas ouvem com a famosa e penosa dor de corno por perto? É que se é isso, então o Leonard Cohen não tem músicas românticas. Mas pronto, o palerma (eu) lá respondeu, e foi quase a mesma coisa que ficar calado. Digamos que fui protegido por uma espécie de anjo da guarda. Tive sorte. Sorte por a pessoa não conhecer as duas canções que disparei, feito imbecil. As canções eram “Oh Patti! Don’t Feel Sorry For Loverboy” dos Scritti Politti e “Angel Eyes” da Jeff Healey Band. Vá lá, a pessoa não conhecia as canções. Claro, aquela pessoa achava que a música começava e acabava numa coisa de nome RFM que já me disseram que muitas pessoas ouvem. Azar. Da pessoa e sorte – muita – minha. Sorte em conhecer algo mais do que a RFM, senão achava que o mundo inteiro era o meu quintal. Mas a verdade é que eu poderia muito bem ter respondido outra coisa qualquer um dia antes ou depois. Isso do “mais”, “maior” ou “melhor” é coisa que não me faz perder muito do meu precioso tempo. Mas nunca mais me esqueci da minha atitude idiota em responder e da cara de tacho da pessoa a quem respondi. Foi bem feito para ambos. Acho que os pássaros têm diálogos mais belos. Pronto, uma vez que respondi isso, fica a promessa de um desses dias falar dos Scritti Politti. Agora, vamos lá falar da bem conhecida – para alguns – “Angel Eyes”.

jeff-healyNorman Jeffrey Healey nasceu a 25 de Março de 1966, em Toronto, no Canadá, tendo sido adoptado por um bombeiro. Com apenas oito meses, ele perdeu a vista, devido a um raro cancro ocular de nome Retinoblastoma. Os seus olhos tiverem de ser removidos cirurgicamente e substituídos por próteses, com fins estéticos. Jeff Healey começou sozinho a aprender a tocar guitarra, com apenas 3 anos e utilizando uma técnica pouco comum, que consistia em pousar a guitarra no colo e tocar na horizontal, um estilo conhecido por lap-top. Aos 17 anos já tinha uma banda de nome Blue Direction, que tocava essencialmente covers nos bares de Toronto. Jeff encontra rapidamente dois músicos, o baxista Joe Rockman e o baterista Tom Stephen, surgindo assim a Jeff Healey Band. O primeiro concerto teve lugar no Bird’s Nest, pequeno bar do restaurante Chicago’s Nest (conhecido pelo ambiente e concertos de jazz e blues), situado na Queen Street West, em Toronto. Receberam uma crítica numa revista local (NOW) e rapidamente passaram a tocar com regularidade em clubes famosos como Grossman’s Tavern ou Albert’s Hall. Foi precisamente neste que nomes como Stevie Ray Vaughan ou Albert Collins descobriram a Jeff Healey Band.
Em 1988 o trio assina com a Arista Records e o primeiro álbum, “See The Light” foi um tremendo sucesso, tendo um tema (“Hideaway”) sido mesmo nomeado para um Grammy. Ao mesmo tempo, a banda gravou parte da banda sonora de “Road House” com Patrick Swayze (com quem aliás Jeff Healey também contracenou). Com os álbuns seguintes, “Hell to Pay” e “Feel This” a banda conseguiu colocar 10 singles nas tabelas americanas, incluindo “While My Guitar Gently Weeps”, original dos Beatles que contou ainda com George Harrison na voz e Jeff Lynne na guitarra. Jeff Healey movimentava-se essencialmente na área blues ou blues-rock, mas por volta do ano 2000 ele dirige a sua criação artística para a sua grande paixão musical: o jazz. Ele tinha uma colecção de raridades do jazz, sobretudo trabalhos das décadas de 1920 e 1930, de mais de 30.000 exemplares de discos a 78rpm. Jeff Healey realizava igualmente dois programas de jazz em Toronto. Para além da Jeff Healey Band, Jeff Healey tinha igualmente outro grupo com o qual tocava em digressão, os The Jazz Wizards, onde ele tocava igualmente trompete. Jeff Healey tinha já angariado o dinheiro suficiente para gerir o seu próprio clube, o “Healey’s”, na Bathurst Street em Toronto, onde tocava com a banda rock às quintas à noite e com a banda jazz aos sábados de tarde. O clube passaria mais tarde a chamar-se “Jeff Healey’s Roadhouse”, já com novas instalações, na Blue Jays Way, mas já não era sua propriedade.
Jeff Healey dividiu o palco e trabalhos com imensos nomes, tais como BB King, Stevie Ray Vaughan, Buddy Guy, ZZ Top, Eric Clapton ou Ian Guillan. Lançou ainda vários nomes por si apadrinhados e apoiados, como é o caso da cantora Amanda Marshall.
Nos últimos anos da sua vida, Jeff Healey voltou a ter o cancro como inimigo. Efectuou várias operações para remover tumores malignos das pernas e pulmóes, mas acabou por morrer a 2 de Março de 2008 no St. Joseph’s Health Centre, na companhia da família e amigos. Faltava um mês para o lançamento de “Mess of Blues”, o primeiro álbum de blues-rock em oito anos. O disco acabou por sair a título póstumo. Jeff Healey deixou dois filhos.
O maior êxito acaba por estar presente no primeiro álbum, “See The Light” e chama-se “Angel Eyes”, uma canção de blues-rock escrita por John Hiatt e Fred Koller. Não sei quantas vezes ouvi esta canção. Não sei quantas vezes me apaixonei ao som dela, quantas vezes me desiludi com o mundo ou quantas vezes o achei perfeito. Sei que a canção faz parte da minha vida e contribuiu para o definhar total do meu Blaupunkt Montreux e das colunas Kenwood. Ainda agora, quando ouço “Angel Eyes”, o meu cérebro desenha instantaneamente as idas à praia no início da década de ‘90, as noites a conduzir no regresso a casa dos concertos ou as ilusões e desilusões vividas então e a memória de paixões construídas e desfeitas como castelos de areia pelas ondas na maré alta.
Talvez por isso eu tenha respondido de pronto naquele dia. As emoções terão falado mais alto?

O videoclip pode ser visto aqui (a família solicitou a não incporporação):
http://www.youtube.com/watch?v=2mhinZxrAcA&feature=related

Mas deixo igualmente este ao vivo na BBC:

Leave a Reply