Balaam And The Angel – Rock’n'roll da escócia com tiques americanos

June 29 2009 No Commented

Há umas semanas um grupo de jovens de um blogue convidou-me a fornecer uma playlist da minha preferência, mas sem nomes portugueses. Assim fiz, com uma condição: essa playlist não reflectia uma preferência de temas, de bandas ou sequer do que ando a ouvir. Eram simplesmente dez canções que disparei e que poderia perfeitamente ouvir naquele momento. Um dia mais tarde, a lista poderia ser a mesma ou diferente. Mas eram dez canções que eu gostava, sem dúvida. De entre centenas delas, só isso.
Qual não foi o meu espanto quando a rapaziada respondeu. Foi bem maior que o deles: nenhum dos três autores do blogue conhecia alguma das canções que eu indiquei, nem sequer os seus autores. Não quis acreditar. Afinal, todo este admirável mundo novo em que vivemos não passa de uma construção em papel vegetal prestes a ser devorada por uma qualquer chuvinha “molha-tolos”. Tudo isto é uma treta. Mas continua toda a gente a opinar que agora sim, com o acesso à internet, os jovens têm uma muito maior facilidade de descobrir coisas novas. Será? Se calhar, até têm essa oportunidade, mas desconfio que não o fazem, não senhor. Afinal, a MTV parece que continua a ditar as regras, assim como as coisas mais mediáticas que aparecem nos anúncios do myspace e portais de música. Agora desbravar mato e partir à descoberta? Duvido muito. Isto funciona por sectores. Consoante a côr musical, o pessoal ouve os Radiohaed, os The Hives, Lamb Of God ou outra coisa qualquer porque fulano também ouve e aquilo até passou na televisão ontem à noite. Ou engano-me? Duvido seriamente que a maioria dos jovens prefira correr a Wikipédia ou os sites de música a descobrir coisas do que em gastar o tempo nas redes sociais, no Messenger ou então na web a ver a Asia Carrera ou as mais recentes fotos da Rita Mendes. Fazem bem e cada um tem o direito de gastar o tempo e dinheiro naquilo que muito bem entender; não me venham é vender a banha da cobra de que hoje em dia os jovens conhecem tudo porque podem encontrar tudo na internet. Podem, mas não encontram, porque não sabem filtrar o ruído nem estão interessados em saber. Ponto final.
No meu tempo (e já sou velho o suficiente para poder dizer uma coisa destas) era através da imprensa que chegavam as informações sobre as coisas novas. E quando me refiro à imprensa falo dos jornais e obviamente da rádio. Dantes ouvia-se rádio e a rádio tinha uma oferta aleatória. Ora, acho que isso era preferível a uma escolha voluntária por parte dos consumidores, como existe actualmente. Acho que se dermos a possibilidade de os jovens escolherem a sua própria ementa, a maioria vai escolher hambúrgeres, batatas fritas e coca-cola, todos os dias.

balaadom5353455123058020Bem, um dos nomes que constava da minha playlist era um tema de nome “Don’t Want Your Love” de uma banda de nome Balaam And The Angel. Que eles não conheciam, claro. Nem eu, quando comprei o álbum. A mim, bastou-me olhar para a capa, para pegar nele e trazer para casa. Um amigo com quem estava, disse que eu era tolo por trazer o disco sem o ouvir. Mas eu não precisava, como nunca precisei de ver o Big Brother para saber que aquilo nunca me interessaria. O disco chamava-se “Days Of Madness” e bastou-me olhar para as fotos, a capa e as letras das músicas. Achei logo que aquilo era do mais puro rock que poderia muito bem servir de banda sonora ao “Easy Rider” se o filme fosse feito duas décadas mais tarde. Cheguei a casa e pus a tocar no gira-discos. A surpresa foi nula, pois sabia exactamente o que me esperava. Só depois me lembrei: ei, eu já conhecia aquilo. Claro, o António Sérgio já tocara no “Som da Frente”. Mas enganei-me numa coisa: a banda não era nada americana como eu supunha, mas antes originária de Inglaterra e formada originalmente por três irmãos escoceses. Já lá vamos, pode ser?

Gustav_Jaeger_Bileam_EngelPara quem não sabe, Balaam And The Angel, é uma passagem bíblica. Em português, Balaão e o Anjo. Na Bíblia, Balaão era um profeta a quem o rei Balaque deu instruções para amaldiçoar o povo de Israel. Por seu turno, Deus dava instruções exactamente opostas. Dividido, Balaão não amaldiçoou os judeus, mas esteve quase. Seduzido pelas recompensas prometidas por Balaque, saiu determinado a fazê-lo, mas foi alertado pela sua jumenta para o que se propunha fazer. Na verdade, Deus mandara um Anjo ao seu encontro, mas Balaão não o viu. Só que… a jumenta viu-o e Balaão deteve-se. A investida ficou por ali, mas Balaão ainda tinha outra jogada na manga: as mulheres de fora de Israel eram belas e iriam seduzir os judeus que cairiam em tentação cedendo à prostituição e assim perdendo a protecção de Deus. Imagino que hoje em dia o nome Balaão suscite entre os judeus reacções diametralmente opostas. Por acaso, tenho um amigo israelita que esteve comigo na Greenpeace e eu imagino que ele esteja grato a Balaão. Digo eu. Se os israelitas gostam, neste caso particular, dos Balaam And The Angel, também não sei.

balaamSe um dia atravessar a Route 66 ou outra qualquer estadual de costa a costa, numa Harley Davidson, podem estar seguros que os Balaam And The Angel farão parte da banda sonora. A banda tem origem em três irmãos escoceses: Mark Morris (voz e baixo), Jim Morris (guitarra e teclados) e Des Morris (bateria). Em miúdos, na natal Motherwell, trabalharam num cabaret e mais tarde mudaram-se para Inglaterra, mais propriamente para Cannock, Staffordshire (próximo de Birmingham, a segunda maior cidade inglesa). Aí formaram os Balaam And The Angel, em 1984. Nos primeiros tempos editaram alguns EP’s através da sua própria editora, a Chapter 22, e fizeram alguns concertos de abertura para os norte-americanos The Cult. A verdade é que a banda ficou mais exposta, ao ponto de a Virgin ter assinado um contrato com vista à edição do primeiro álbum em 1986, de nome “The Greatest Story Ever Told”. Seguiu-se depois uma digressão pelos Estados Unidos com, imaginem, os Kiss e Iggy Pop. Acham que três escoceses podem ambicionar a mais?
Em 1988 entra um segundo guitarrista para os Balaam And The Angel, de nome Ian McKean. Nesta altura a sonoridade passou de gothic rock para rock’n'roll com características hard rock. Editaram o álbum “Live Free or Die” (1988) e mais tarde o tal “Days of Madness” (1989), até cessar o contrato com a Virgin. Deste álbum, o tema “I’ll Show You Something Special” fez parte da banda sonora do filme “Planes, Trains and Automobiles”. O último álbum chama-se “Prime Time” e data de 1993. Houve vários EP’s pelo meio. A banda ainda existe e está planeada uma digressão ainda para este ano de 2009.

Deixo-vos com o single do álbum “Days Of Madness”. O tema chama-se “I Took A Little”. Pena o som estar uma bosta, mas não encontrei melhor:

E este é um single mais antigo, de 1985. Se calhar vocês já conhecem:

Leave a Reply