Sea Shepherd – odiados e amados

June 2 2009 No Commented

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David McTaggart, um antigo campeão de badminton e construtor civil canadiano, foi alertado por um anúncio de jornal sobre a intenção do governo dos EUA em realizar testes nucleares no arquipélago de Amchitka, no Alasca. No dia 15 de Setembro de 1971 partiu de Vancouver a bordo do seu barco “Philis Cormack” para protestar contra os testes. Com David seguiram outros amigos, todos eles activistas ambientais e pequenos pescadores. O grupo então conhecido por “Don’t Make a Wave Committee” (alusão às ondas provocadas pelos testes) foi impedido de chegar ao local pela marinha dos EUA, mas o protesto estava assinalado e ganhou força. Nascia a Greenpeace.
Nessa altura, estávamos em pleno movimento hippie e ainda hoje os opositores das causas ambientais utilizam o termo “hippie” quando se querem referir, com sentido pejorativo, aos activistas ambientais. A bordo do Philis Cormack seguia Paul Watson, um eterno apaixonado por cetáceos e pela vida marinha. Paul Watson tornou-se um dos fundadores da Greenpeace e permaneceu na organização até 1977, ano em que seria expulso por onze votos contra um (o seu). A Greenpeace optou sempre pela não violência desde a sua fundação, mas Paul Watson era mais radical e queria usar de todos os meios para impedir a caça à baleia. Uma vez de fora, Paul não perdeu tempo e no mesmo ano fundou a Sea Shepherd Conservation Society, uma das mais temidas e odiadas associações ambientais em todo o mundo – pelo menos, para aqueles que não conhecem a Earth Liberation Front, mas isso fica para outra altura.

Desde a primeira hora que as diferenças entre a Greenpeace e a Sea Shepherd são evidentes. A Greenpeace executa protestos mediáticos não violentos e faz lobbying junto das autoridades para que sejam aprovadas leis de protecção ao meio ambiente. A Greenpeace tem igualmente nos seus quadros imensos cientistas e dá formação aos seus activistas e voluntários. A Sea Shepherd é mais directa. A organização de Paul Watson funciona muito à sua imagem rebelde e intransigente e ele nunca mais se esqueceu da sua expulsão da Greenpeace. Não são só as formas de actuar que dividem as duas associações. Na verdade, existe um ódio latente entre ambas.

A Sea Shepherd não hesita em usar da violência contra qualquer barco de pesca que, segundo a sua óptica, esteja a cometer ilegalidades. Entre as suas vítimas contam-se cerca de dez baleeiros que o capitão Paul Watson afirma já ter afundado. O primeiro, de nome “Sierra” foi vítima em 1979, precisamente em Portugal. Mesmo assim, a Sea Shepherd nunca matou ninguém até aos dias de hoje. O maior risco é sempre corrido pelos seus próprios activistas. Ao contrário da Greenpeace, os activistas da Sea Shepherd recebem pouca formação sobre como actuar em acções perigosas no mar e isso poderia mesmo ter sido fatal em Janeiro de 2007. Dois elementos perderam-se na Antárctida a bordo de um pequeno Zodiac (os barcos de borracha a jacto usados nas acções) e o alerta foi lançado. A própria Greenpeace através do seu maior navio, o Esperanza, interrompeu uma acção para partir em busca dos adversários e o mesmo aconteceu com o alvo de todos os protestos: a gigantesca frota japonesa de baleeiros Nisshin Maru. Os activistas acabaram por ser encontrados e a breve trégua terminou ali.

Na verdade, a frota de seis navios Nisshin Maru é o alvo do maior ódio da Sea Shepherd que anualmente desloca para a Antárctida o seu mais versátil quebra-gelos, o “Steve Irwin” (nome que homenageia o conservacionista australiano falecido em 2006 e conhecido por Doctor Croc). A Sea Shepherd dispõe actualmente de três navios. Raras são as vezes que o “Steve Irwin” não se envolve em confrontos directos com os gigantes japoneses. Na verdade, existe um santuário definido pelas Nações Unidas e pela International Whaling Commission, que proíbe a caça à baleia na Antárctida. O Japão já tentou romper por várias vezes o tratado, mas foi sempre rejeitado. Contudo, não é só em Portugal que existem leis feitas “à medida”. Existe uma cláusula que permite a caça com fins científicos, numa quota que anda perto das mil baleias anuais. O Japão faz uso dela até ao extremo com o argumento de que está a estudar a genética dos cetáceos, a evolução dos habitats e do número de indivíduos, os hábitos migratórios, etc. Para levar a cabo os “estudos”, a frota Nisshin Maru escreveu “Research” em todos os barcos e mata… mil baleias. Uma vez no Japão, outra lei para lavagem de actos: toda a carne de baleia usada em investigação, diz a lei japonesa, deve ser aproveitada e assim o mercado de carne de baleia chacinada na Antárctida vai parar a milhões de latas e às lotas de todo o Japão. Para justificar as “investigações”, o Japão faz publicar meia dúzia de estudos pouco convincentes em duas ou três revistas. Em ternos científicos, é todo o resultado da matança de cerca de mil baleias. O Japão alega que a lei está do seu lado, mas a Sea Shepherd não vai nisso e persegue ferozmente a frota Nisshin Maru todos os anos. Para o capitão Paul Watson, tal prática do Jaoão não tem qualquer fim científico e se as leis existentes dentro do santuário não são respeitadas (porque ninguém está na disposição de obrigar o Japão a fazê-lo), então a Sea Shephed assume-se como polícia. Paul Watson argumenta que se não existe uma polícia internacional que proíba o Japão de continuar com essa prática, então eles estão dispostos a fazer cumprir a carta das Nações Unidas para a Natureza. Desta feita, todos os anos a Sea Shepherd arrisca, só na Antárctida com o “Steve Irwin” uma série de acções arriscadas e algo violentas que correm o mundo. A Greenpeace faz o mesmo, mas evita o confronto, não obstante ainda há poucos meses o “Arctic Sunrise” ter sofrido um abalroamento por parte de um navio arpoeiro da Nisshin Maru. Já a Sea Shepherd vai mais longe, ao ponto de assaltar os navios japoneses e provocar incindentes diplomáticos, uma vez que, mesmo em águas internacionais, os barcos são considerados território do seu país de registo. Talvez por isso a Sea Shepherd se considere como uma associação de piratas ambientais. Para muitos, sobretudo os opositores destas causas, eles não passam de um bando de hippies eco-terroristas. Seja como for, caso algum dia vocês integrem uma tripulação de algum barco de pesca ilegal, ponham-se a pau se virem um barco da Sea Shepherd ao largo. Eles não são mesmo para brincadeiras, acreditem. Mas, caso vocês soltem um alerta de SOS, também podem estar certos que eles vão partir em vosso auxílio. No mar existe um clima de terror frio e controlado.

Não obstante todas as polémicas e ódios que a Sea Shepherd tem conquistado, a verdade é que o capitão Paul Watson tem sido imensas vezes convidado para conferenciar em inúmeras universidades e a Sea Shepherd goza de estatutos atribuídos pelas Nações Unidas na qualidade de associação de vigilância e protecção dos ecossistemas marinhos. De resto, Paul Watson e o resto dos activistas parecem determinados em, definitivamente, não olhar a meios para defender a sua causa. Mesmo que continuem a ser chamados de “eco-terroristas”. Mas é preciso saber quem utiliza o termo. Na verdade, tenho-me apercebido que o termo é utilizado tanto para atacar a Sea Shepherd como a Greenpeace. Se quem o faz conhece bem as duas organizações, então é porque se sente incomodado e eles não andam no mar propriamente para agradar a toda a gente. Se os críticos não conhecem as organizações e falam de cor por ódio de estimação, metendo tudo no mesmo saco, então também lhes dou poucos créditos. Normalmente, a fonte de tais acusações tem origem em cús enterrados no sofá, de lata de cerveja na mão a ver 22 marmelos a trás de uma bola (ou a enfiar-lhe com um taco se for do outro lado do Atlântico). Esses, são o tipo de indivíduos que não mexem uma palha por ninguém, mas acham que a vida lhes corre bem só porque têm dinheiro para ter televisão por cabo, empanturrarem-se de frango de churrasco e ir às putas. Não lhes dou muito crédito. Nem a eles, nem às pessoas que conseguem ter uma opinião instantânea sobre tudo.

Para vosso julgamento, deixo-vos com um video dos muitos que se encontram na net. Cada um tire as suas conclusões e assim é que deve ser. Conheço bem a Greenpeace porque já lá estive, mas nunca tive qualquer contacto formal com alguém da Sea Shepherd. Gostava, contudo, de ter uma opinião formada sobre eles e é para isso que me tenho esforçado. Talvez um dia…
Este video é assustador. Assista-lhes ou não a razão, é preciso ter coragem para fazer isto. Mesmo assim, há coisas mais terríveis e tensas, mas ficam para outra altura. Algumas imagens nem existem na net.

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