A banda sonora da minha morte
Mais tarde ou mais cedo vocês vão ter de se ir habituando à ideia de viver sem mim. Eu já não vou para novo e não durarei para sempre, por isso é bom que se habituem a deixar de me ouvir, de me ler e de me dar cabo da cabeça. Mais a sério: eu já vou convivendo bem com a hipótese de morrer um dia. Talvez porque já perdi pessoas muito importantes na minha vida, que fizeram parte de mim e partiram, eu encare hoje a morte com um misto de respeito e indiferença. Como amo demasiado a vida e procuro com ela conviver no limite das emoções, optei por não me preocupar nem assustar com a hipótese de ter de morrer. Pessoas mais importantes do que eu morrem todos os dias e eu não devo ser especial, por isso…
Quando eu era miúdo “morria” quase todos os dias. Explico: tinha pesadelos terríveis durante o sono. Sonhava que estava a ser devorado por bestas gigantescas, que estava a cair na cratera de um vulcão, que me alvejavam, que me perseguiam ferozmente ou que me torturavam. Acordava aterrorizado a meio da noite, feliz por aquilo ser apenas um pesadelo real, mas logo me assustava com a ideia de voltar a adormecer e viver de novo aqueles momentos terríveis. Muito antes de o Wes Craven realizar o primeiro “Pesadelo em Elm Street”, já eu vivia isso bem de perto. Ora, um tipo assim não pode viver em paz e eu tinha de fazer alguma coisa. Comecei então a tentar controlar a minha mente antes de dormir. Pensava sempre que aquilo não passavam de brincadeiras do meu cérebro, provavelmente provocadas por alguma insegurança que eu sentia mesmo quando acordado. Depois de adquirida mais alguma confiança e controlo emocional, comecei a deixar de ter pesadelos e a controlá-los. Durou uns largos meses, contudo, até virar costas aos pesadelos e acordar precisamente antes deles acontecerem. Seguiu-se um processo de os fintar, alterando o desenlace do sono e troçando mesmo das personagens que o meu cérebro construía. Nesta fase, curiosamente, comecei a apreciar filmes de suspense e de terror. Apanhar sustos é uma actividade que ainda gosto de ter, mas prefiro estar preparado para os ter e não que o meu cérebro tome a iniciativa de me pôr aos saltos e aterrorizado. Mas o meu controlo sobre os sonos aperfeiçoou-se de tal ordem que comecei a ter os chamados sonhos lúcidos. Em vez de pesadelos, comecei a ter sonhos idílicos que eu controlava. E a verdade é que ainda hoje mantenho essa característica, o que me permite viagens espaciais, o vislumbre de paisagens mágicas, encontros fabulosos e, claro, algum erotismo. Melhor ainda, lembro-me de muitos detalhes depois de acordar e imagino se estes cenários não existirão algures no Universo, onde encontramos cem mil milhões de galáxias cada uma com outras tantas estrelas. Isto não acontece todos os dias, mas é frequente e não tem nada de transcendente ou anormal. Muita gente desenvolveu essa capacidade e alguns ainda procuram aperfeiçoar as técnicas. Nada de anormal, garantiu-me um amigo psicólogo. Aliás, segundo ele, toda a gente tem essa capacidade, bastando despertá-la e desenvolvê-la. Se assim não fosse, eu não estava para aqui a contar isto, sob pena de vocês me acharem maluquinho. É assim e ponto final, está bem? Roam-se de inveja.
Contudo, há uma pequena factura a pagar – era bom demais para ser só num sentido, não? A verdade é que o sono é mais leve e assim acordo com mais facilidade. Mas não é o facto de não dormir que me chateia. É que quando vocês dormem, os vossos cérebros desligam as funções motoras para que vocês não se ponham aos saltos, a correr ou a nadar na cama – já para não dizer outras coisas. Se um despertador vos acordar, essas funções são retomadas de imediato, por instinto de sobrevivência. O problema, meus amigos, é quando, muito raramente, os sonhos lúcidos põem termo ao “filme” voluntariamente e um tipo fica literalmente paralisado. A primeira vez que me aconteceu, fiquei aterrorizado. Depois de me documentar e voltar a falar com quem sabe, fui informado de que isso também é normal. Ou seja, um tipo acorda, consegue olhar para todo o lado, vê o quarto todo e o relógio, tem plena consciência de estar acordado e desperto, mas não consegue mexer-se ou falar. Passados uns segundos, liga-se tudo e é um dia normal como outro qualquer. Isto é raríssimo, mas mesmo assim, assustado, consultei um especialista do sono. Afinal, eu não sou nenhum freak e isso acontece e é normal com algumas pessoas. Alguns não contam a ninguém com vergonha, outros acham que são chanfrados e outros ainda vão a correr à missa derreter ex-votos; ou então à bruxa que lhes mama uma pipa de massa e diz que eles estão cheios de problemas que urge resolver de imediato – com mais massa.
Ora, isto remete-me para outro assunto. Já todos ouvimos falar das experiências de quase morte (EQM), normalmente resultantes de uma hipóxia cerebral (falta de oxigénio no cérebro). As mais relatadas são o efeito túnel ou a experiência fora do corpo (fenómeno denominado por EFC, OOBE ou autoscopia). Este fenómeno é relativamente frequente em blocos operatórios, onde os doentes afirmam ter saído do seu corpo e visto a sua própria operação e sentido uma enorme paz de espírito, sensação de plena felicidade e harmonia e uma ampliação dos sentidos (eu já fui operado, mas isto não aconteceu comigo, que dormi como um urso em hibernação). Até há pouco tempo isto era desconsiderado pela ciência, mas recentemente têm sido desenvolvidos imensos estudos nesta área, se bem que ainda não exista consenso. A verdade é que os relatos são aos milhares e muitos deles provenientes de pessoas idóneas, como intelectuais, catedráticos, artistas e pessoas acima de qualquer suspeita. Claro que muitos envolvem as suas experiências em ambientes místicos, outros afirmam ter encontrado Deus e outros encontraram a “fava” e, em vez da paz interior e criaturas angelicais, experimentaram uma sensação de inferno com criaturas grotescas no meio das trevas – isto é que eu dispenso quando chegar a minha vez. Há várias teorias e uma delas é que, carente de oxigénio, o cérebro desliga as funções sensoriais do sistema nervoso para assim poupar recursos e lutar pela sobrevivência. Esse fenómeno conduzirá às experiências relatadas – porquê?, ainda ninguém explicou. Outros estudos separam a morte clínica da morte cerebral. Ou seja, mesmo depois de confirmado um óbito, há quem afirme que, em alguns casos, o cérebro pode ainda funcionar com o mínimo de recursos e ter mesmo alguns sentidos a funcionar, como a audição. Cientificamente, esta teoria parece-me pouco provável, mas a ser verdade, é mesmo o maior medo que eu tenho. Não me agrada muito a ideia de eu passar para o outro lado e ainda poder ouvir pessoas aos berros e lamentos ou coisas como “Oh, coitado, conhecias o tipo?”, “mais um que vai passar as férias à terra”, “antes ele do que eu”, “pronto, que se lixe, uns vão e outros vêm”, “olha, arranja-me um cigarro”. Não, isso não. O “Kingdom Hospital” pode ter alguma piada, mas como obra de ficção.
Quando eu morrer, não quero que chorem ou mandem tocar sinos. Não quero que cubram o chão de crisântemos ou o céu de nuvens negras. Se não for pedir muito, queria apenas que tocassem uma música bela, cantada pela voz dos anjos.
Pode ser esta? Obrigado e vão à vossa vida.
Que coincidência: uma música da minha banda preferida…
Abraço.