The House Of Love – injustamente esquecidos

July 17 2009 No Commented

Os Beatles são, porventura, a banda mais importante da história da música moderna e do rock em particular. É quase um lugar comum afirmar-se isto e apenas aqueles que querem procurar uma nova Pedra da Roseta insistem em colocar reservas. São aos milhares as bandas por todo o mundo que, directa ou indirectamente se sentem influenciadas pelo quarteto de Liverpool ou que beneficiam das portas que eles abriram. E então em Inglaterra, onde quer que estejamos, basta dar um pontapé numa pedra e aparecem logo duas bandas herdeiras do colectivo que no ponto mais marcante da sua curta história, contou com Ringo, Paul, John e George.
A banda que hoje vos trago é, sem pestanejar, herdeira dos Beatles e até têm um tema de nome “Beatles And The Stones”. Ouvi-os pela primeira vez na BBC e depois o nosso grande amigo António Sérgio fez o favor de os mostrar ao público nacional no lendário “Som da Frente”, na Rádio Comercial – quase só o nome é comum ao modelo de rádio actual.
Nos anos oitenta eu era uma espécie de René da série “Allo Allo” e tinha amigos dos dois lados da barricada. Para que vocês percebam onde quero chegar, nos anos oitenta, ou se ouvia metal ou música alternativa que na altura se chamava “vanguarda” – termo que continuo a abominar com todas as minhas células. Eu só conhecia um tipo que ouvia os dois estilos e com o mesmo entusiasmo e para o conhecer, bastava olhar-me ao espelho – sim, era eu. E havia mesmo uma tensão estúpida entre as duas facções com insultos mil vezes mais infames e acéfalos do que os que são trocados pelos jovens de hoje. A exposição desta triste demonstração tinha lugar às Terças-feiras na edição semanal do jornal Blitz, numa secção intitulada “Pregões e Declarações”. O jornal dispunha de um cupão que se preenchia e enviava pelo correio. Depois, com alguma sorte, aquilo era publicado e mais uma posta de verborreia era atirada para empestar a cena nacional. Os cinzentões que gostavam dos Bauhaus destilavam pseudo-intelectualidades contra os metaleiros e os fãs dos WASP argumentavam com masculinidade infantil contra os outros. Um cenário triste análogo a um talk show do Goucha onde se colocam famílias desavindas frente a frente. Eu andava ali no fio da navalha e aproveitei para me empanturrar do que de melhor havia dos dois lados. Tanto ouvia os Jesus And Mary Chain como os Iron Maiden e divertia-me com as considerações de ambos os lados. Mas fiz amigos – e amigas – dos dois lados e acho que fui eu quem mais lucrou.
TheHouseOfLovePor tudo isto, vinte anos depois o meu espólio de memórias é duas vezes maior do que o dos meus amigos. Para hoje, escolhi uma banda que nasceu nos anos oitenta, mas foi na primeira metade da década de noventa que mais se notabilizou. Chamam-se The House Of Love e são de Camberwell, no coração de Londres, se bem que o vocalista/guitarrista Guy Chadwick seja natural de Hanover, na Alemanha. Guy (ex-Kingdoms) juntou-se a Terry Bickers (ex-Colenso Parade, na guitarra), Andrea Heukamp (guitarra e voz), Chris Groothuizen (baixo), e Pete Evans (bateria), decorria o ano de 1986. Assinaram pela Creation Records, por quem editaram três singles, até à saída do primeiro álbum em 1988. O sucesso foi tal que a banda se mudou de armas e bagagens para a Fontana Records. As coisas não foram fáceis nos primeiros tempos. O primeiro single, “Never”, ficou-se pelo 41º lugar do top, precisamente o mesmo lugar do seu sucessor, “I Don’t Know Why I Love You”. O segundo álbum também enfrentou alguns problemas até sair praticamente dois anos depois do primeiro. Contudo, o álbum foi antecedido por uma reedição do primeiro single, “Shine On”, que subiu até ao top 20 em 1990. Já o álbum, conhecido por “Butterfly” (mas oficialmente sem nome, como o seu antecessor), acabaria por chegar ao top 10. O tema que já referi antes (“Beatles And The Stones”) foi um single extraído deste disco e chegou a nº 36 do top.
house of loveO consumo de drogas no seio da banda criou uma tensão entre Chadwick e Bikers, tendo este deixado e banda para formar os Levitation, sendo substituído por Simon Walker (ex-The Dave Howard Singers). Seguir-se-ía, em 1991, um dos meus trabalhos preferidos, “A Spy In The House Of Love”, compilação que reunia alguns lados B e outro material inédito, mas que saiu sobretudo para ganhar tempo para o terceiro álbum. Em finais de 1991, a banda editou dois singles,”The Girl With the Loneliest Eyes” e “You Don’t Understand”. No meio dos dois, Walker abandona a banda, cedendo o seu lugar a Simon Mawbey. Finalmente, o álbum “Babe Rainbow” foi editado em Julho de 1992 e, apesar das vendas razoáveis, teve uma reacção fria por parte da crítica. O mesmo aconteceria um ano mais tarde, com “Audience With the Mind”. A banda acabaria nesse mesmo ano, tendo Guy Chadwick reaparecido em 1997 com uma carreira a solo, lançando um álbum de nome “Lazy Soft and Slow”, um ano mais tarde.
Mas não há nada que o tempo não cure e a animosidade entre Chadwick e Bikers parece finalmente ultrapassada em 2005, quando a banda decide reformar-se e editar “Days Run Away”, ao mesmo tempo que o primeiro álbum seria reeditado em 2007. Os The House Of Love voltam à estrada, primeiro com uma digressão pelo Reino Unido e Irlanda e mais tarde pela Europa e mesmo o continente americano. Se ainda não saiu, deve estar para sair “Live At The BBC”, um álbum com selo da Mercury.
Confesso que não tenho uma grande curiosidade em redescrobrir os “novos” The House Of Love. Pelo sim pelo não, acho que prefiro manter bem viva a memória e as recordações da primeira fase da banda, herdeira directa de uns Smiths ou Echo And The Bunnymen, numa altura em que as guitarras assumiam um papel preponderante no pop-rock britânico indie (claro, falarei dos Chameleons mais lá para a frente). Deixo-vos com dois singles dos primeiros tempos dos House Of Love. São canções que ouvi vezes sem conta, no carro e em casa, mas das quais não me lembro de alguma vez ter ouvido de dia. Talvez por isso os temas se chamem “Shine On” e “Christine”…

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