O meu triste encontro com o Espírito Santo

June 3 2009 one Commented

Isto passou-se há uns 15 ou 16 anos no balcão de Barcelos de uma coisa chamada Banco Espírito Santo. Depois de tantas experiências de vida e de ter experimentado tanta coisa, eu acahava que já conhecia bem o mundo e os seus habitantes, mas este episódio fez-me acordar para uma realidade dura que ainda infesta este pobre Portugal, a tresandar a Salazar por tudo quanto é canto.

Um amigo meu era então um apaixonado por motos e já havia mesmo feito o Nacional de Motocross. Desta vez, queria comprar uma moto, mas ainda era jovem e não tinha o dinheiro suficiente. Fez como todos os tipos pobres: pediu dinheiro ao banco. Bem, pedir pediu, mas ficou a ver navios. Precisava de 400 contos, não mais.

Na altura, eu ganhava relativamente bem e tinha umas economias mas, por princípio, não emprestava dinheiro a ninguém. Foi-me, contudo, solicitado que fosse avalista dessa tentativa de empréstimo e eu aceitei. Ficou combinado que me teria de deslocar ao balcão do BES de Barcelos no dia seguinte e na hora de almoço. Assim fiz. Engoli uma refeição ligeira à pressa e lá fui à hora marcada de encontro ao meu compromisso, enfrentando um estômago pouco resignado com a situação. À hora marcada eu estava lá, mas ainda tivemos de esperar pelo senhor do banco uns bons 15 minutos – tempo que me custou o dobro em ordenado mais um dia de subsídio de alimentação, pois acabei por chegar atrasado ao turno da tarde no meu trabalho. O homem lá chegou, uma figura típica de bancário, enfatuado da cabeça aos pés, barba recortada e meia dúzia de papeis na mão. Falou-se sobre o pedido de empréstimo e dos moldes em que ele se efectuaria e o homem mirava-me de alto a baixo. Achei que ele me deveria conhecer de algum lado mas essa foi a última vez na minha vida que fui inocente. Entreguei-lhe um comprovativo de vencimento, mais uma declaração de IRS e outro papelote qualquer. Assinei mais outro papelote. O meu amigo, no fim do encontro, perguntou quando poderia ter uma resposta. O homenzinho da barba recortada disse-lhe que talvez só lá para o meio da tarde ou no dia seguinte, pois teria de submeter o pedido aos serviços centrais na sede do banco em Lisboa. Era mentira. Esse indivíduo que miou mais do que falou e teve sempre um discurso titubeante era – é – afinal, um tipo mau e perigoso.

A resposta veio no próprio dia. O meu amigo ligou para o homenzinho da barba recortada e a resposta já foi menos titubeante: “Foi recusado”. Seguiu-se uma curta pausa e depois o homenzinho prosseguiu: “Sabe, um avalista não pode ser uma pessoa qualquer. Tem de ser outro tipo de gente, não pode ser um amigo que se encontra numa esquina. Tem que ter outra apresentação”. Lindo. O homenzinho enfezado e que miava era, afinal, um títere hediondo ao serviço de uma mentalidade asfixiante e decrépita. Eu fui lá ter com a roupa com que fui trabalhar. Lembro-me como se fosse hoje: ténis, jeans e uma t-shirt preta. Nessa altura ainda tinha o cabelo todo e preto, que cortava regularmente… uma vez por ano, em Agosto. Estávamos em Junho, portanto tinha 10 meses desde a última carecada. Azar meu, ou do meu amigo. Eu deveria saber que, para ir falar com um reles bancário de barba recortada, deveria ir como se fosse receber um Óscar ou fazer um doutoramento. Talvez aí eu fosse “outro tipo de gente” e não “um amigo que se encontra numa esquina”. E quando digo que o homenzinho era mau e perigoso, não me refiro só à discriminação e insulto de que fui alvo. Refiro-me também ao facto de ele ser mentiroso. A decisão não era nada da sede, com um valor daqueles. A decisão era mesmo dele, como me foi confirmado mais tarde por outra pessoa e como as palavras dele denunciaram. Ou alguém em Lisboa viu que eu estava assim tão mal vestido de t-shirt e jeans? Ah, e de cabelo grande. E o “amigo que se encontra numa esquina”, por acaso até tinha trabalhado em conjunto com o meu amigo cliente do BES em acções de defesa da Natureza e de Direitos Humanos. Mas, o que interessa isso para um tipo que aparece com o cabelo de 10 meses e t-shirt preta? E que aparece assim a um reles bancário de barba recortada? Se eu aparecesse como ele, já deixava de ser “um amigo que se encontra numa esquina” e passaria a ter crédito da criaturinha? Até poderia fazer mal aos outros que isso não contaria nunca numa primeira análise acéfala da criatura que tem medo de quem é diferente dele?

O que me indignou não foi a atitude do pobre títere. Ele discriminou-me porque é um imbecil que não joga com o baralho todo. É um reles bancário que discrimina negativamente as pessoas que ele considera diferentes de si. Será, concerteza, uma patologia do foro psicológico que deve ter tratamento. Julgo que a educação do sujeito é que já não terá um tratamento tão célere. O títere não só usou a discriminação contra mim, como parece ter tido um especial prazer em expor a sua decisão com o comentário que fez ao telefone com o meu amigo. Ou seja, aquela criaturinha habituada a mexer no dinheiro dos outros, sentiu prazer em usar o seu pequeno poder e em se vangloriar dele. Ora, estes seres abjectos são efectivamente maus e perigosos.

Tenho vários amigos bancários e gerentes bancários. Todos andam de fato. Uns são obrigados, outros não se importam e outros até gostam e continuam a usá-lo, mesmo ao fim-de-semana. Tudo bem. Mas todos com quem falei se mostraram indignados com a atitude do colega deles do balcão do BES de Barcelos. Um ainda sugeriu que eu apresentasse queixa, mas – permitam-me o termo – optei por não mexer mais na merda. Provavelmente seria a minha palavra contra a dele, com um árbitro igual a ele no meio. Um mestre, quiçá. Que se lixe. Ainda hoje passo pelo homenzinho na rua e desprezo-o como às pedras da calçada. Perdoei-lhe… mas não esqueço. Perdoei-lhe pelo facto de ter usado do seu pequeno e mesquinho poder discriminatório contra mim; não esqueço que tenha exibido o seu troféu, como um matador exibe o rabo do touro ou um carrasco exibe a cabeça de um condenado à guilhotina. Isso não, senhor bancário de barbicha recortada de fazer inveja aos bodes do Gerês. Mas perdoo, claro. Barcelos tem um hospital psiquiátrico e desde muito jovem habituei-me a partilhar as ruas com os doentes que têm licença de saída. Encaro-os com a maior das naturalidades e não os olho de canto. Nem lamento. Habituei-me a considerá-los simplesmente como cidadãos diferentes e nada mais. Algo que faço em relação ao títere da barba e lamento que ele não pense como eu. Pobre desgraçado. Será, muito provavelmente, o mais infeliz dos seres: desconhece a sua própria natureza infeliz.

O empréstimo foi feito com sucesso noutro banco desinfestado de indivíduos daquela estirpe.

One Response to “O meu triste encontro com o Espírito Santo”

  1. Filipe Myce says:

    Boas Melo!
    Pois!! é a mesma coisa do costume! Esses tipos ´so se endireitam quando um gajo os pusser a mijar pelas calças baixo! É o costume, ele esquece-se é que fora do banco é um palhaço como muitos outros que circulam nas nossas ruas à procura que um avariado qq lhes fod.. a cabeça.
    Grande Abraço e Caga nisso pq comigo os bancos nem cheiram nem piam…

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