Duas leoas implacáveis e uma gazela incauta
Em 1987, juntamente com uma série de amigos, tínhamos uma rádio pirata em Barcelos. A rádio tinha um nome horrível (Rádio Atlântida) e era uma rádio horrível. Passavamos – alguma – boa música, mas éramos muito maus a fazer rádio. Aliás, éramos tão maus que julgavamos ter jeito para aquilo – faltava-nos aquela pequena dose de sensibilidade para reconhecer a nossa falta de classe. Até isso. Aquilo era péssimo. Para mim, foi uma boa escola, sobretudo quando comecei a gravar os meus programas e a ouvi-los em casa, posteriormente. Era nessa altura que as trevas desciam ao meu quarto, tudo se cobria de negro e eu desejava profundamente que ninguém tivesse ouvido aquilo. Eu não sabia respirar, gerir pausas ou colocar a voz, não controlava os níveis, não conseguia colocar a mínima carga dramática no meu discurso e, pior do que isso, falava de improviso sem pensar no que estava a dizer. Ainda mantenho algumas gravações, mas estão bem guardadas e não terei qualquer problema em as exibir como o exemplo máximo de como não fazer rádio. Se calhar, se vocês as ouvirem, vão encontrar paralelismos em muita coisa que ainda se faz hoje em dia. E, acreditem, muita coisa feita por profissionais – aqueles tipos que são pagos para fazer rádio. Eu jamais ouvirei aquilo sem outro propósito que não seja o de mostrar exactamente o caminho a evitar.
Mas, pronto, o centro comercial na baixa de Barcelos onde se situava a rádio era o nosso ponto de encontro e o local onde a gente se sentia bem e, quando havia tempo, aquele era o nosso local predilecto, como os bêbados elegem a tasca, os bombeiros o quartel ou os drogados um qualquer beco lúgubre. Nessa altura eu pouco mais fazia do que desporto e um reles programa de heavy metal e hard rock. Um programa foleiro que quase se limitava a passar música com essas características – e, claro, era estupidamente mal apresentado e conduzido. Mas o programa tinha uma grande mais-valia: como eu e o meu assistente (sim, éramos dois…) conhecíamos bem a cena metálica internacional e eu falava alemão (lia, por isso, todos os meses a Metal Hammer alemã), estavamos sempre por dentro de tudo e o programa tocava as coisas mais recentes que os nossos curtos orçamentos conseguiam adquirir. Aí, até fizemos história. Para muita gente em Barcelos, heavy metal era sinónimo de Saxon, Iron Maiden, Def Leppard, Ac/DC e os gigantes de um passado recente, como Led Zeppelin, Black Sabbath, Judas Priest ou Deep Purple – na verdade só os Led Zeppelin tinham acabado. Assim, num belo dia fomos à rádio e eu levava na mão um vinil do “Master Of Puppets” dos Metallica, ainda com a memória recente do acidente na Suécia que vitimara o baixista Cliff Burton. A rádio tocava nessa altura uma das coisas mais horripilantes que os alemães já fizeram e tiveram a tremenda lata de a mostrar ao mundo: um duo de nome Modern Talking.
Abro um parêntesis para dizer que os alemães, em matéria de música pimba, são campeões absolutos. São a pátria de nomes de culto como Stockhausen ou Kraftwerk, bons nomes da pop como Alphaville ou excelentes nomes da música electrónica e electro-industrial, já para não falar do hard rock dos momentos aureos dos Scorpions ou de uma das rainhas do punk como Nina Hagen. Mas quando desatavam a ser pirosos, eram simplesmente imbatíveis e era de lá que vinham as coisas mais grotescas que vocês possam imaginar.
Até esse momento, eu nunca tinha sido do género de criticar aquilo que os outros gostam ou ouvem (havia música que chegasse para todos), mas como esses artistinhas estavam no ar com um single de nome “Geronimo’s Caddilac”, lembrei-me de ver um maxi-single amarelo com um Caddillac Eldorado na capa – um belo carro, por sinal. Deduzi que era esse disco de capa berrante que agora estava a espalhar azeite pelo espectro do FM. E não me enganei. Fiz um flashback na minha memória. Lembrei-me de ser miúdo muito pequeno e me sentir atraído pelas velas de cera que a minha mãe punha a derreter. O tom de cor das velas e aquela superfície polida atraíam-me de tal modo que uma vez a emoção falou mais forte que a razão e eu dei uma trinca numa, até aí, irresistível vela. Foi uma lição para a vida: aquilo era mesmo fraco e nem sempre o que parece é. Ao ouvir esse “Geronimo’s Caddilac” lembrei-me da história da vela, tinha eu 4 ou 5 anos. Ouvir aquilo era como comer cera dentro de um pão. Era desagradável. Nessa altura apenas comentei algo do género “Ai isto é que é o ‘Geronimo’s Caddilac’?”. Só perguntei, mais nada. Nem usei nenhum tom jocoso ou irónico. Mas foi o suficiente para soltar as feras. Estavam na rádio duas mocinhas (irmã e namorada de um colega) que me despedaçaram num ápice. Imediatamente a ira das duas madames se abateu sobre mim, como uma leoa limpa o sebo a uma gazela. As garras trespassaram-me o corpo, os dentes furaram-me os órgãos vitais e, sem que pudesse sequer acrescentar algo, a minha capacidade argumentativa sucumbiu perante a raiva incontrolada das moças. Acho que se tivessem à mão duas catanas me trespassavam às postas. Foi uma simples pergunta minha, mas aquelas duas raparigas comportaram-se como aqueles fundamentalistas em qualquer religião que não aceitam sequer uma questão. Para elas, o simples facto de eu questionar aquele tema tinha um de dois significados: ou punha em causa o valor dos Modern Talking (que eram bons como cera no pão) ou demonstrava desconhecer a “obra”. Uma de duas hipóteses ou as duas juntas eram, assim, pecado mortal, e eu tinha de ser queimado vivo. Nem foi preciso. Retenho algumas das palavras iradas: “Ai sim? Pelo menos não fazem barulho. Fazem uma música agradável que as pessoas gostam e estão no top. Não são como esses guedelhudos que só fazem barulho. Eles, ao menos não incomodam as pessoas e não põem cemitérios nas capas dos discos. Que nojo”. Mas isto é só uma amostra da festa. Houve muito mais, mas o meu sistema nervoso desligou as funções vitais e anestesiou-me: eu acabava de sucumbir sem saber porquê.
Guardo as palavras “incomodam as pessoas”. Se vocês não se incomodam com os Metallica (nem mesmo quando tocam as baladas na RFM), ponham-se a pau. Muito provavelmente vocês nem pessoas são, logo, não são gente. Mas eu aprendi algo mais sobre o mundo animal: que uma gazela tem de estar sempre alerta na savana e ao mínimo descuido as leoas tratam de lhe fazer a folha. A verdade é que, se até aí eu desprezava completamente esse duo, a partir daquele momento comeceia sentir por eles um asco que nem vos conto. E eu, que nem uma pessoa sou.
A verdade é que, 22 anos volvidos, os Modern Talking jazem no mais profundo e frio esquecimento e os Metallica enchem estádios e recintos com 100 mil pessoas, tocam com orquestras filarmónicas e têm centenas de artistas dos mais variados quardantes musicais a interpretar os seus temas, dos Apocalyptica a Avril Lavigne. E o mais engraçado de tudo é que os filhos e filhas das duas senhoras iradas agora subtraem dinheiro ao orçamento das mamãs e andam centenas de quilómetros para ver concertos dos Metallica. Aqueles duas donzelas deveriam saber que não se pode abater assim um demónio da música maldita, sob pena de o seu fantasma cá ficar a atormentar-lhes a existência.
Qualquer que seja o vosso lado da barricada, aqui ficam os dois protagonistas do ataque feroz (descubram as diferenças):