Shnitt Acht – os dentes afiados da Florida
Quando os mestres Kraftwek desbravaram todo o imenso caminho rumo à electrónica, fizeram-no com a extraordinária torrente criativa do colectivo alemão, fundando na Alemanha uma verdadeira escola de música pop electrónica. Rapidamente essa nova vertente seria acolhida pelos mais variados estilos musicais, formando um verdadeiro caleidoscópio musical e abrindo um sem-número de novos estilos e sub-estilos. Inicialmente, o metal pareceu algo tímido e relutante a fugir à bitola dominante. No entanto, como em qualquer corrente artística há sempre aqueles que decidem inovar e apostar na diferença. Quando a electrónica chegou ao metal teve vários impactos com várias consequências. Houve uma, contudo, mais dominante que rapidamente criou um subestilo perfeitamente sólido e consistente. Falo do industrial metal, dos quais os nomes maiores talvez sejam os Ministry e Nine Inch Nails.
Em 1993 comprei, sem audição prévia, um disco de nome “Slash & Burn”, de um projecto de nome Schnitt Acht. E comprei gato por lebre, porque me foi vendido como sendo um projecto de industrial metal canadiano. Como sempre tive imenso respeito pelos músicos canadianos das mais variadas áreas, comprei sem olhar para trás.
E acreditem que fiquei convencidíssimo que aquilo era mesmo canadiano, até descobrir que, afinal, era de Orlando, na Florida. Mas isso foi muito tempo depois e já os Schnitt Acht me tinham como um fã incondicional.
Nunca me esquecerei da primeira vez que pus aquilo a tocar no meu leitor de CD do carro. Chovia a potes, eu pus o volume alto e, ainda por cima, o disco abria com um introdutório algo enigmático, mas de baixo volume. Quanto o intro parecia ter a presa anestesiada, soltou-se o primeiro riff e a primeira batida numa bateria desenfreada. Foi como se o carro tivesse sido atingido por um raio. O impacto das ondas sonoras fez tremer o interior, eu fiquei gelado, o meu sistema nervoso desligou-se por instantes e só mesmo os instintos ficaram activos numa tentativa de salvar mais uma criatura.
Mas os instintos contiveram-se: eu que detesto ouvir música demasiado alta no carro, contive-me também por instantes e desfrutei do choque. Chovia ainda mais. A EN13 entre o Porto e Vila do Conde parecia um rio com leito de alcatrão e navegado por camiões e carros, quase tantos como as gotas de água que caíam do céu furioso. Era como se estivesse a ver um filme e tivesse desligado o som.
Soube bem ser dilacerado por um disco. Um simples disco que me apanhou distraído e me confundiu os reflexos. Nunca mais me esqueci e este é um álbum que guardo e ponho a tocar com a mesma emoção da primeira vez, mas agora sem sustos nem surpresas.
Os Schnitt Acht são, afinal, originários de Orlando, na Florida e eram formados por Morgan Lekcirt (nome artístico de William Morgan Trickel), Virgil L. Hibbs e Jeff E. O primeiro contrato data de 1989, com uma subsidiária da Cheetah Record Company, a DJ Magic Mike’s Majii. As primeiras edições não passaram de alguns vinis em 12 polegadas, até ao primeiro álbum, “Subhuman Minds”, em 1990.
Mas a grande obra-prima foi mesmo “Slash & Burn”, editado em 1993. Diz quem viu que entre 1991 e 1994 a banda conseguiu reproduzir muitíssimo bem ao vivo aquilo que os discos mostravam – e não era fácil. Chegaram a fazer uma digressão europeia, mas Portugal ficou de fora. Acabaram em 1994 e, ironicamente, foram descobertos mais tarde quando a internet os levou a gente que os perdera antes.
Mas agora compreendo: os Schnitt Acht são da Florida e na Florida ficam os Everglades, onde habitam aqueles simpáticos crocodilos (que lá se chamam aligátores), uns zelosos rapazes sempre a postos a nos deixar prontinhos para a colocação de piercings. Pois… os Schnitt Acht são de lá. Claro. No Canadá não há crocodilos.
E aqui fica a formação:
Morgan Lekcirt – voz, programações, misturas, batidas e teclados
Virgil L. Hibbs – guitarra e voz
Jeff E. – bateria e percussão
E agora vejam lá como eles eram ao vivo em em video, com este oficial “Rage”, tema de “Slash & Burn”. Intrigante, no mínimo. Mas prestem atenção ao trabalho incrível do baterista. Alto e bom som: IMPRESSIONANTE.
Vejam… se têm dúvidas…