Os cangalheiros da Microsoft

January 25 2010 No Commented

Há cerca de dois meses, regressava eu do trabalho e encontrei um amigo à porta da minha garagem à minha procura – o homem não tinha o meu contacto e precisava de falar comigo. Depois de estacionado o carro, explicou-me que precisava de recuperar dados de um disco de computador e por isso veio à procura da minha ajuda. O que se passou antes é simples e comum a muitos utilizadores: o computador foi sendo atulhado de informação, mais software para isto e aquilo, trials, anti-vírus, pirataria, anti-spyware, foi ficando lento e… pum! O Windows deixou de arrancar. Tentativa em cima de tentativa e aquilo ficava congelado e não atava nem desatava. Ele contou-me que até deixou o arranque uma noite inteira mas aquilo não saiu do sítio. O Windows mostrava as janelinhas todas catitas e nada. Ele já tentara arrancar com o CD do xp, fez uma recuperação, um chkdsk, instalação em cima e… nada. Ele até sabia como formatar aquilo de raiz, mas o que o preocupava eram os dados que se encontravam no disco e ao qual ele não tinha acesso. Nem era muita coisa: meia dúzia de testes (o meu amigo é professor), as fotografias e alguns trabalhos das filhas, alguns textos e uma brincadeira ou outra. Ah, e o mais importante: alguns dados sobre a avaliação dos seus alunos dos 10ª, 11º e 12º anos. Isso é que o preocupava mais. Tudo junto seriam uns 500MB, não mais. O mais relevante eram apenas documentos do Word, que até cabiam num punhado de MB. Quanto ao resto, ele até mandava tudo ao ar, formatava de novo e instalava o xp. Para recuperar os dados, dirigiu-se à loja onde comprara o seu desktop para lhe efectuarem esse procedimento, porque o resto fazia ele. E, depois de visitada a loja, o homem lembrou-se de mim. A verdade é que, só para copiar os ficheiros pedidos, a loja pediu-lhe a quantia “simbólica” de 50 Euros. Barateiros os artistas, hein? A razão da visita do meu velho amigo era simplesmente uma: saber se os tipos da loja estavam a praticar um preço justo ou não. Na altura não soube como reagir, pois não estava por dentro do problema, mas ele explicou-me: a solução adiantada pelo tipo da loja era abrir o computador, retirar o disco, abrir outro computador e colocar esse disco como escravo de outro para copiar os dados para um CD ou DVD. Depois, voltariam a pôr o disco no sítio para que o meu amigo pudesse finalmente formatar e voltar a instalar o xp. Por tudo isso, queriam 50 Euros.

Depois de analisada a situação, cheguei a uma conclusão, resultante de duas hipóteses: ou estes gajos não percebem absolutamente nada de informática ou valem-se da ignorância dos clientes para lhes extorquirem dinheiro. E se aproveitam a ignorância das pessoas, estes tipos não passam de oportunistas que se valem das borradas da Microsoft para ganhar uns cobres à custa dos clientes. Lamentavelmente, há muitas lojas a fazer dinheiro à custa da limpeza de vírus, formatação de discos e reinstalação de sistemas operativos. É triste, mas é verdade.

Depois de actualizada alguma conversa, fiquei de passar em casa do meu amigo no dia seguinte no fim do trabalho para ver se o ajudava. Eu já sabia o que iria fazer e antes de sair de casa peguei num Live CD do Linux – o primeiro que encontrei foi um do Fedora Core 10, Quando cheguei a casa do meu amigo, arranquei com o Live CD, localizei o disco rígido e ele disse-me onde estavam os ficheiros. Com um brilho de fascínio nos olhos, o meu amigo assistiu à cópia dos ficheiros para uma pen. Perguntei-lhe se ele queria mesmo formatar o disco, porque poderíamos fazer isso logo ali. Foi o que fizemos. Depois, ele meteu o CD do xp, aquilo arrancou, instalou o xp de novo e ficou com uma máquina nova. Pelo meio, bebemos uma cerveja cada um e actualizámos anos de conversa. Mas o meu amigo não parava de olhar de soslaio para o meu Live CD e tratou de querer saber mais alguma coisa sobre o Linux. Foi preciso vir mais uma cerveja para cada um, para que eu lhe resumisse em que isso consistia. Ficou muita coisa por dizer, mas ele lá me convenceu a arrancar de novo com o Live CD do Fedora. Estava fascinado com aquilo e visivelmente satisfeito com uma solução tão simples e económica de recuperar dados recorrendo a outro sistema operativo. Foi então que eu lhe disse que até dava para instalar aquilo na máquina dele e ele poderia usar os dois sistemas operativos. O meu amigo parecia um homem das cavernas maravilhado com um admirável mundo novo que desconhecia. Demorámos uns minutos até particionar o disco e deixar o Fedora instalar-se na máquina dele, configurando todo o hardware. Pedi-lhe para ligar uma impressora por USB e ele babou-se a ver o sistema operativo detectar a impressora e auto-configurá-la sem a pilha de CD’s do Windows. Mas faltava qualquer coisa: ele é um comum utilizador de computadores que pouco mais usa que a internet e o Word. Pois, faltava o Word. Ora, como o Fedora é baseado em Red Hat e não é um Debian (como o Ubuntu) não traz o Open Office de raiz. Assim, fiz uma actualização na net e instalei-lhe o Open Office para Linux – afinal, o “Word” a que o meu amigo se referia era o processador de texto do Open Office em Windows, só que ele gravava sempre em formato doc. Sem saber, o meu amigo já usava open source sem fazer a mínima ideia. Durante mais uma meia hora expliquei-lhe que ele não precisava de anti-vírus ou anti-spyware porque, a menos que ele fosse um utilizador radical da net, jamais sofreria um ataque em Fedora. Avisei-o que, contudo, tinha uma pequena desvantagem: se ele insistisse em algum software específico para Windows, eu não garantia que isso funcionasse no emulador Wine. Isso e os jogos – até há quem chame ao Windows “uma consola de jogos”. Aí, o entusiasmo desvaneceu um pouco: o meu amigo adorava aqueles joguinhos da treta do Windows, como a paciência e análogos. Aí, mostrei-lhe a lista de jogos disponíveis em Fedora e todos aqueles que ele poderia instalar ou remover no gestor de pacotes. A efémera desilusão transformou-se em entusiasmo e ele agora parecia querer agarrar o Fedora com unhas e dentes. Expliquei-lhe ainda que o Ubuntu talvez fosse melhor solução para ele por ser mais difundido e existir mais suporte na internet, mas ele foi dizendo que só queria aceder à net, escrever documentos no word para fazer os testes, poder ler os ficheiros simples em Excel e PPS e um joguinho simples uma vez ou outra – as filhas adolescentes é que se punham para ali a instalar coisas. Ora, se ele tinha tudo com o Fedora, já não precisava de arrancar em Windows. Seria? Deixei ficar os dois sistemas operativos na máquina e fiquei de o contactar mais tarde. Aguardei uns dias e liguei-lhe para saber se estava tudo bem. Surpresa total: não só estava bem, como ele até já tinha explorado o sistema operativo e já o tinha configurado. Já o tinha actualizado e andava a documentar-se sobre as várias distribuições de Linux. Disse-me que aquilo era muito mais fácil e prático e também muito mais bonito. Nunca mais arrancara em Windows e estava satisfeitíssimo. E continua…

Posto isto, continuo sem perceber os motivos que movem os tipos das lojas de informática. Agora percebo por que motivo eles nunca recomendam o Linux a ninguém: é que em Windows há muito mais probabilidades de o cliente aparecer de novo na loja com o computador às costas, Ou então, pouco mais conhecem do que a chachada do Windows e, nesse caso, não deveriam ter lojas de computadores abertas, porque eles não são profissionais de informática que deviam servir os clientes. Em vez disso comportam-se como parasitas do Windows e por isso eu quero distância deles. Que trabalhem, é a única coisa que lhes peço. Para cangalheiros, já basta quando um tipo se passar para o outro lado.

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