Mundial de 1954 – sabor a injustiça
Já muita gente questionou sobre qual seria a melhor selecção de sempre da história do futebol. Há várias teorias, sempre numa análise subjectiva. Há quem diga que foi a Holanda, a famosa Laranja Mecânica derrotada por Alemanha e Argentina em 1974 e 1978 respectivamente. Outros ainda, dividem-se entre o Brasil de 1970 e a Hungria de 1954. A verdade é que, quanto mais recuarmos, mais difícil se torna a avaliação, porque a erosão do tempo vai apagando a memória dos heróis de outrora e porque a tecnologia não permitiu grandes registos audiovisuais. Se me permitem, falaremos da Hungria de 1954, que só mesmo a erosão do tempo pode ter apagado outro sentimento: o de injustiça.
O Mundial de 1954 era o primeiro na Europa, depois da II Guerra Mundial. A Suíça foi escolhida, por ser um país neutro e mais capaz de acolher um Mundial com países oriundos de um mundo ainda instável e dividido por uma perturbadora Guerra Fria. Inscreveram-se 35 países, com a ausência da URSS (que ainda não se decidira a participar na prova máxima do futebol mundial) e a Argentina que optou por não viajar até à Europa. O Mundial de 54 tinha um aliciante extra: a final seria transmitida pela televisão, algo inédito até então. Inéditas também eram as derrotas da Inglaterra em casa, mas o ciclo havia terminado em 25 de Novembro de 1953, em Wembley, quando a Hungria impôs um humilhante 6-3. Mesmo assim, pouco, se compararmos com os 7-1, meses mais tarde, em Budapeste. A Hungria já havia vencido o torneio olímpico dois anos antes, em Helsínquia, e sobre si recaíam as atenções. A equipa era simplesmente perfeita, então com três dos melhores jogadores de todos os tempos, os lendários Kocsis, Czibor e Puskas. Não foi, por isso, surpreendente a aparente facilidade com qua a Hungria ultrapassou a primeira fase. Surpreendentes podem ser os números: 9-0 à Coreia do Sul e 8-3 à Alemanha (a Alemanha a que me refiro neste texto é, obviamente, a República Federal da Alemanha, uma vez que depois da II Guerra e da edificação do muro de Berlim, o país ficou dividido na RFA e RDA).
A equipa magiar prosseguiu a sua marcha imparável até à final, com vitórias por igual score (4-2) sobre o Brasil e Uruguai, respectivamente vice-campeão e campeão do mundo, quatro anos antes no Rio de Janeiro. Já a Alemanha, não obstante ter perdido por 8-3, conseguira desenvencilhar-se e apurar-se para a fase seguinte, onde afastou a Jugoslávia e a Áustria. Assim, a Alemanha voltaria a defrontar a Hungria, agora na final de Berna a 4 de Julho de 1954. E o espectro do terror provocado pelos 8-3 dias antes enegreceu ainda mais logo aos 6′ quando Puskas abriu o marcador para a Hungria. Dois minutos volvidos, Czibor fazia o 2-0 para a Hungria. Lembro: a Alemanha perdera por 8-3 na primeira fase e na final, logo aos oito minutos já perdia por 2-0. Tudo parecia apontar para uma vitória daquela que todos consideravam a melhor equipa do mundo. Mas… o inesperado aconteceu. Aos 10′ Morlock reduziu para a Alemanha e Rahn empatou aos 18. O jogo chegou ao intervalo com 2-2 e as expectativas eram enormes para a segunda parte. O estado do tempo, muito chuvoso, não ajudou, mas a verdade é que a 6 minutos do fim Rahn bisou e fixou o 3-2 final. Só que, diz quem viu (e existem relatos da altura), os jogadores alemães tiveram um desempenho muito estranho e acima das capacidades atléticas tidas como normais à época.

Foi a primeira vez que se falou abertamente em “doping” no desporto de alta competição e o rumor ficou no ar. Se aliarmos isso a uma arbitragem manhosa e tendenciosa do inglês Ling e a algum desconforto por porte da FIFA em atribuir um campeonato do mundo a um país do Leste europeu em plena guerra fria, talvez se consiga perceber como aquela equipa, que muitos consideram a melhor de todos os tempos, perdera essa épica final a 4 de Julho de 1954. Mesmo assim, a Alemanha tem o seu mérito. Eram poucas as equipas com capacidade para vencer a Hungria.
Fica aí um resumo da final em francês:
Ou o orgulho alemão (mas a cores):
Na memória guardo mais campeonatos do mundo com vencedores manhosos ou, pelo menos, a suscitar grandes dúvidas: Itália (1934), Inglaterra (1966), Argentina (1978), Alemanha (1990).