Edições

Último Podcast (9 Dez 2017)

Clica para ouvir

Entrevista: Waste Disposal Machine

Waste Disposal Machine

Entrevista com Happy Farm

Happy Farm

Entrevista com Grog

Grog

Entrevista com Galo Cant'às Duas

Galo Cant'às Duas

Emissão em Direto (Sádado 12-15)

Clica para ouvir

Bruno Pernadas apareceu em apoteose com “How can we be joyful in a world full of knowledge” (2014). Dois anos depois regressa com dois álbuns ainda mais poderosos. São duas elegias da felicidade. Para já, fiquemo-nos pelo primeiro.
“Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them” é um disco feliz. Não sei se é um disco sobre a felicidade, mas a felicidade transparece em todos os seus poros (aceitemos que a música também tem pele: respira e transpira). É um disco feliz porque reflecte a felicidade de quem o fez.

Não posso afirmar que o Bruno Pernadas é mais feliz do que qualquer outra pessoa, mas a sua música parece abençoada por essa felicidade que começa nas ideias, passa pelo modo de quem as executa e chega intacta a nós, os ouvintes, que logo notamos a diferença entre uma coisa e outra, e acabamos o disco tão felizes como feliz é o disco.

Na realidade não terminamos completamente felizes. Quando o disco acaba, termina a felicidade de escutá-lo. Pior ainda: o disco termina com um tema que se despede da felicidade. São duas infelicidades: o disco acaba, e o último tema diz-nos que a felicidade também acabou.

Esse último tema chama-se “Lachrymose” e é tão belo e é tão triste como as mais belas histórias de amor que um dia terminam. Nem o Pernadas nem ninguém sabe o que é a felicidade até a felicidade terminar. A felicidade precisa de acabar para podermos dizer: “fui feliz”. Só que ao dizê-lo a felicidade já foi, e o que resta é um disco.  Pormenor desportivo: “Lachrymose” é o único tema do disco que foi gravado integralmente por Pernadas em sua casa, enquanto decorria o Portugal-País de Gales para as meias-finais do Euro 2016. “O reverb que se ouve é o som da minha sala”, explica Pernadas: “É uma possível conversa entre duas pessoas, sendo que às vezes a pessoa A está a dizer o que a pessoa B está a pensar. Acaba por ser uma conversa que termina uma outra conversa que nunca aconteceu.”

“Those who throw objects at the crocodiles...” é um disco feliz, dizíamos. A maneira mais rápida de nos apercebermos de como este disco é um disco doloroso, é escutá-lo até ao fim, e depois escutá-lo logo a seguir desde o início, sabendo que muito do que originou e tornou possível este disco é a tal história de felicidade que chegou ao fim. Reparem no tema instrumental que tem o expressivo título “Because it’s hard to develop that capacity on your own.” Reparem ainda como a sequência de colagens em “Ya ya breathe” gera um efeito de vertigem, até regredir a um tempo mítico. É quando escutamos os seguintes versos: “What am I doing here, said the young man to the sacred bull, I travelled so far to get here, and yet I still don’t know why I must have done something wrong in the pathway,
That’s not the face I was hopping to see, that’s not it, That’s not my loved one.”

O título do álbum é inspirado numa relação tripla com: 1. o documentário “The man who swims with crocodiles”, sobre um costa-riquenho que desenvolveu uma estranha relação de amizade com um crocodilo; 2. uma placa informativa num parque da Florida; 3. a devoção que os antigos egípcios tinham aos crocodilos, a ponto de lhes reconhecerem poderes divinos. Resumindo tudo num aforismo moral: “Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them” é sobre o acto de ter de ir buscar de volta aquilo que ninguém nos pediu para dar.

Sabemos que estamos a ouvir um grande disco de duas maneiras. A maneira mais fácil é andar a ouvir esse disco há vinte, trinta, quarenta anos (se a companhia dura há tanto tempo, é porque é mesmo bom). A outra maneira é ouvir um disco e logo à primeira não conseguir imaginar o futuro da música depois dele. Como se o disco fosse tão bom a ponto de não acreditarmos que seja possível fazer melhor.

No caso deste “Crocodiles”, há uma alegria suplementar. A sua música é-nos familiar, mas de uma maneira estranha, já que nada chega a tornar-se verdadeiramente reconhecível. É como se Pernadas pilotasse um dirigível sonoro a uma altura e a uma velocidade em que reconhecemos algo, sem saber o quê. O que nós escutamos não é a música que o influenciou: o que nós escutamos é a própria viagem de escuta. Daí haver tantos movimentos, tantas dinâmicas, tantas mudanças. É uma música em jeito de bailado a atravessar a música.

Se observarmos cada um dos seus temas em forma de gráfico, torna-se notória a sua elaboração, estruturada por movimentos, com motivos, arranjos e efeitos de pormenor que tanto podem estar compartimentados num desses movimentos, como atravessar a totalidade do tema, ou apenas pontuá-lo. Há sempre qualquer coisa de rigorosamente metódico, na articulação das suas melodias, dos seus ritmos obsessivos, das suas magníficas harmonias. Nas suas transições lentas e rápidas. Mas se nos concentrarmos em cada segmento, isolado da sequência completa, estamos de regresso à simplicidade elementar das canções da nossa infância – é nesse tempo, em que a realidade se confunde com a magia, em que os factos fazem companhia à imaginação fantasiosa, que geramos a matriz de felicidade que só o final do disco revelará totalmente.

Há músicos, como Brian Wilson, ou Thelonious Monk, que fazem depender a sua escrita musical de uma regressão à infância. No caso de Pernadas, julgo que isso acontece pelo facto de ele dar aulas de música a crianças. Lembro-me de uma história, por ele contada, sobre uma aluna de oito anos que se queixava do seu violino ser muito pequeno e por isso ter poucas notas. O equivalente em Pernadas é nunca ter meios suficientes para ter o número de músicos que gostava para os seus arranjos orquestrais – mas mesmo quando o número não está lá, conseguimos mesmo assim alcançar a sua vocação orquestral.

É inútil comparar a música de Pernadas a outros músicos e estilos. Avancemos só um pouco na tentativa de comparação para mostrar até que ponto o exercício é estéril. Tomemos de exemplo o tema “Spaceway”. A ideia desse tema surge de uma cena do filme “Bullit”, com Steve McQueen. Cito o Pernadas: “Uma banda de jazz está a tocar uma cena tipo valsa, num restaurante, com a flauta como lead. Quando vi o filme adorei a música. Se calhar foi por isso que acabei por usar flauta.” Pernadas não se preocupou em saber quem compôs esse tema, mas preocupamo-nos nós: chama-se “Cantata for combo” e é do compositor argentino Lalo Schifrin. A relação entre o tema de Pernadas e o de Schifrin é no entanto meramente tangencial. Poderíamos acrescentar que o tempo de valsa, no tema de Pernadas, tem muito mais a ver com a abordagem modal de Coltrane em “My favourite things” e mesmo assim não estaríamos perto de acertar – é só outra tangente.

“Galaxy” e “Ya ya breathe”, dois temas longos, são ainda mais escorregadios nessa impossibilidade de se deixarem apanhar em antecedentes ou influências. “Galaxy” soa a disco de rock progressivo da escola de Canterbury, mas executado por uma orquestra dos tempos das Big Bands; “Ya Ya breathe” começa por apontar aos anos 90, a discos como “Moon safari” dos Air ou “California” de Mr. Bungle, mais a nostalgia pela sonoridade dos anos 70, ou pelos sons exóticos de Les Baxter nos anos 50, para depois incluir um daqueles solos de guitarra ao melhor estilo de Prince.

A música atravessa dimensões temporais e estéticas, é certo, abre-se a portais, avança por caminhos esconsos e estradas secundárias e tudo o que pretende é não estacionar, é continuar a sua digressão, de quem brinca ao toca-e-foge. O acto de citar, ou de dialogar com determinada escola ou obra, nunca chega verdadeiramente a dar-se.

(Rui Catalão, Lisboa, 6 setembro 2016)

Bruno Pernadas: guitarras, teclados, piano, baixo, sintetizadores e voz
Afonso Cabral e Francisca Cortesão: voz
Margarida Campelo: piano, teclados e voz
João Correia: bateria e percussão
Nuno Lucas: baixo
Diana Mortágua: flauta
Diogo Duque: trompete, fliscorne e flauta
João Capinha: saxofones alto e tenor
Raimundo Semedo: saxofones barítono e tenor

©2016 Pataca Discos (DP00116)
Escrito, arranjado e produzido por Bruno Pernadas
Letras de Bruno Pernadas e Rita Westwood
Gravado no 15A Studios entre Março e Abril de 2016 por Tiago Sousa
Gravações adicionais caseiras por Bruno Pernadas
Misturado e masterizado por Tiago de Sousa
Artwork por Rita Westwood

http://www.brunopernadas.com
www.facebook.com/brunopernadaspage

1. Poem (0:27)
2. Spaceway 70 (7:19)
3. Problem number 6 (4:22)
4. Valley in the ocean (6:45)
5. Anywhere in spacetime (6:46)
6. Poem (0:25)
7. Because it's hard to develop that capacity on your own (2:04)
8. Galaxy (8:42)
9. Ya ya breathe (13:03)
10. Lachrymose (3:06)

 

 

 

 

 

Share

Parcerias

 
A Trompa NAAM  

Parcerias Software Livre Audio

 
Rivendell - Radio Automation Mixxx - Free DJ Mixing Software Paravel Systems Tryphon