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ENTREVISTA A RICARDO (LANDUM)

Francisco Landum, ou melhor, Ricardo, foi - segundo as contas da Sociedade Portuguesa da Autores - o autor que mais facturou em direitos de autor no ano 2000. Mas quem é este quase desconhecido Ricardo, que surge à frente de nomes de vulto como Pedro Ayres Magalhães, Carlos Paredes, João Gil, Fausto, Tim ou Miguel Ângelo? O NetParque foi procurar este músico, compositor e produtor e Ricardo abriu-nos as portas dos estúdios Aiksom para dar a conhecer-se.

Qual é a origem, a história, do nome Ricardo?

Comecei desde os três anos a cantar com os grupos corais lá da minha terra, alentejanos (sou de Cuba). Os meus pais começaram a notar que tinha jeito para a música e comecei a insistir. Aos nove anos, compraram-me uma guitarra. Comecei a tocar em grupos de bailarico aos 13 anos, depois tornei-me profissional aos 18 anos, quando foi a grande revolução do rock português. Comecei a gravar discos aí e já sou profissional desde essa altura. Profissional da tanga, que a gente não ganhava dinheiro nenhum na altura.

Quando é que gravou o seu primeiro disco?

Gravei o meu primeiro disco em 80, com os TNT. Mas na altura era muito difícil, não se ganhava tostão. Entretanto, os grupos que tinha eram muito rock, ou muito radicais " tinha um grupo de heavy metal, dos primeiros de Portugal, chamado Iberia, que foi um bocado precursor. Mas naqueles anos, dos 20 aos 25, com aqueles grupos todos não dava nada. Tentei ser profissional nessa altura, mas as condições eram adversas. Houve o "boom" mas depois parou outra vez, um concerto era uma aventura. Mas não desliguei da música, não descolei. Queria ser profissional a todo o custo, porque era aquilo que gostava de fazer. Acho que a maior felicidade de uma pessoa é fazer aquilo de que gosta, é a maior dádiva que existe. E tentei, tentei, tentei. Entretanto, o TNT acabou, tentei uma carreira a solo e fiz uma maqueta no estúdio. Coincidiu com a instalação da CBS em Portugal, que hoje é a Sony Music, e tive a sorte de mostrar uma maqueta que eles quiseram. Só que eu queria fazer rock e eles não, queriam fazer um pop ligeiro, uma coisa para vender em massa. E havia uma coisa contra, que era o meu nome: Francisco não estava na moda, Landum muito menos. Fizeram uma selecção de nomes e foram tirar nomes de novelas brasileiras. Estavam muito na moda o Ricardo e o Ándré e decidiram Ricardo. Não me desagradou. Quer dizer, desagradou, mas queria fazer alguma coisa na música e achei que estava ali uma boa porta para entrar. E a partir daí, vivo com uma "trialidade" de nomes " a minha mãe chama-me Francisco, ou Chico, entre os meus amigos mais íntimos, mais antigos, do meio do rock, sou conhecido por Landum, e no meio desta música ligeira e destas pessoas que conheci depois daí é Ricardo. Tenho três nomes.

O Ricardo, apesar de vir no topo da lista dos autores que mais facturam...

Eu nem sabia. Desconfiava. Mas nem ligo muito a isso. Ligo simplesmente a fazer o meu trabalhinho bem feito. Dá-me gozo não estar aqui a encher chouriços. Ando de volta de uma canção já há uns dois dias quando podia levar só um dia a fazer aquilo. Mas já estou há dois dias e dá-me gozo. Sobretudo estou nisto porque gosto disto. Agora, sabe bem ganhar dinheiro. Quem é que não gosta?

Mas a questão é: o nome é praticamente desconhecido " não é estranho a lista ser liderada por um desconhecido?

Porque eu não dou a cara. Esse pessoal todo são autores, de quem gosto muito " o Pedro Ayres Magalhães, o Tim, o Carlos Paredes então é excelente. Mas são todos, se reparares, "cantautores". Basicamente, interpretam aquilo que escrevem. Portanto são pessoas muito mais mediáticas do que eu.

Assume-se como autor?

Assumo-me também como intérprete. Eu sei cantar, pelo menos dizem que sei cantar bem. Até acham ridículo e parvo da minha parte não aproveitar para cantar. Dizem. Eu acho que canto bem. Quer dizer, sei cantar. Não sei se canto bem ou não, sei cantar, sou afinado. Tanto que fiz uma carreira a solo e em todos os grupos era vocalista. Diziam que sabia cantar. Mas optei por outro tipo de vida. Acho que o meu afastamento do palco e das luzes foi natural. Comecei a ter sucesso como produtor e comecei a descobrir um prazer que não conhecia, que era fazer músicas de grande êxito, é um gajo chegar à rua e ouvir as pessoas a cantar a nossa música e "eh pá, afinal, o que eu estou a fazer as pessoas gostam". E comecei a ter nisso um prazer suplementar.

Como é que passou do rock para esta música mais popular?

Eu vou sempre ao velho lugar comum. Na altura, não se vivia do rock em Portugal. Vi-me com 26 anos, não ganhava dinheiro, queria ter a minha vida e não tinha emprego. Entretanto comecei a estudar, a acabar o curso para dar aulas de música, e surgiu-me um convite de uma editora. E descobri que tinha jeito para fazer música ligeira comercial, "light music", para fazer melodias que ficam no ouvido e letras que diziam alguma coisa às pessoas, vulgo, o povo. Comecei a ter êxito e comecei a conseguir subsistir, a poder comprar uma guitarra nova, a poder pensar a minha vida. E, sobretudo, começou a dar-me gozo estar no estúdio. É quase natural, um gajo vai-se afastando. Os concertos cada vez eram mais, mas eram sempre em condições adversas, e cedo me comecei a desinteressar. E comecei a ganhar um gozo enorme por isto. Foi natural, comecei-me a acomodar também a este tipo de vida, a gostar deste tipo de vida, a fazer o meu trabalho tipo "nine-to-five", chegar a casa e ir para o meu estudiozinho compor. Dá-me um gozo tremendo e sou um gajo feliz. Podia ter uma banda mas dediquei-me a isto e acho que cada vez me quero dedicar mais.

Como é que aconteceu a passagem pelos Da Vinci?

Quando fui para a CBS, quem produziu o meu disco foi o Manuel Cardoso e o Pedro Luís, que era o mentor e o fundador dos Da Vinci. Entretanto, houve um elemento dos Da Vinci que saiu e pediram-me para substituí-lo. No início foi pontual mas, quando ganhámos o Festival da Canção (em 1989), o grupo teve tanto sucesso e tanta estrada para fazer que não tive hipótese e tive que deixar as bandas rock que tinha. Mas já estava muito embrenhado no estúdio. Depois dos Da Vinci, quando tinha 30 anos, desliguei-me completamente da música ao vivo. Gosto muito desta vida e o estúdio dava-me segurança para poder arranjar alicerces seguros para poder criar. Porque qualquer artista tem que ter bases e essas bases passam também pelas bases económicas. Porque não acredito que haja muita gente de estômago vazio e a morrer à fome que consiga fazer grandes obras de arte. Uma pessoa pode fazer grandes obras estando na miséria, mas se calhar pode fazer melhores obras se estiver bem. Não quer dizer que esteja na luxúria, mas um bocadinho mais confortável. Para poder comprar uma boa guitarra, um bom computador ou um bom teclado, para poder ter um bom estúdio. Isso tudo são as bases de que necessitava para exercer o meu trabalho. Na estrada ganhava dinheiro mas não estava seguro.

O nome Ricardo está associado a numerosos artistas. Com quem é que costuma trabalhar mais?

Eu trabalho para a malta chamada da música ligeira. Já lhe chamaram "pimba" e não sei quê. Devo ter para aí umas 2.500 obras editadas, tenho mais de duzentos e não sei quantos discos de ouro, de platina e de prata. E números um em Portugal não sei quantos já tenho. Já trabalhei e trabalho com muita gente " Tony Carreira, Mónica Sintra, Ágata, Romana, as Tayti, Micaela, o Axel"

Qual foi o último grande sucesso?

Foi o Tony Carreira. Este ano o Tony Carreira teve um grande êxito com o álbum "Olympia", com canções que nós fizemos. Mas há muito mais coisas.

Há algum artista para quem goste mais de escrever ou com quem goste mais de trabalhar?

Não vejo as coisas assim. Gosto de escrever música, gosto de escrever canções. E neste momento já me posso dar ao luxo de ter o privilégio de trabalhar com artistas de que gosto, que já conheço. E quando venho para o estúdio, não estou preocupado se é para este ou se é para aquele. Estou preocupado em ter um grande prazer em fazer o que estou a fazer e em atingir o objectivo a que nos propusemos. Cada artista que trabalha comigo é quase como família naquele mês em que fazemos o disco. O prazer é recíproco e aí entrego-me sempre de alma e coração. Quando me proponho a fazer um trabalho, o artista tem que corresponder e eles todos têm correspondido.

Há algum trabalho que prefira ou que tenha como favorito?

Não. É o último. Tenho sempre canções de grande sucesso mas não quer dizer que essas, por terem mais sucesso, me dêem mais gozo. Eu tento gostar daquilo que faço, é condição obrigatória gostar daquilo que faço. Se não gostar, aquilo não transmite nada. Se não estiver a ter gozo com aquilo, o público sente que foi feito a martelo. Tenho que ter gozo com aquilo que faço, e todos os discos me dão gozo. Sou um rocker assumido desde os 15 anos. As primeiras coisas que tocava era Deep Purple, Uriah Heep, Nazareth e Led Zeppelin, para não falar nos Stones e nos Beatles. Sou um rocker assumido, mas, mais que rocker, sou músico. A música para mim é demais. E tento ter o maior prazer nas coisas e dar a minha verdade maior.

Como é que a pessoa que escreve estas coisas todas não é conhecida?

Achas que uma pessoa fica mais realizada por ser conhecida? É claro que esta entrevista me satisfaz o ego, mas é uma coisa menos importante. Se me dissesses assim: preferes largar o estúdio, largar a criação de canções, em prol de apareceres nas revistas todas deste país e seres conhecido? Não queria. Isto não é importante para mim. Acho que não é importante para ninguém. Qual é a importância que tem uma pessoa aparecer só por aparecer? Que gozo é que isso dá se não houver essência naquilo que faz? Acho que o aparecer é de menos, comparado com o que se faz. O que interessa é o que somos e o que fazemos realmente. Não é aquilo que parecemos. E sou vaidoso, toda a gente é. Não fico impávido e sereno quando ouço bem ou mal de mim. Uma pessoa não fica indiferente. Gosta quando os amigos dizem "é pá, estavas muito porreiro naquela entrevista". É claro que se gosta, o ego é o ego.

Já alguma vez se sentiu provocado por alguma coisa que tenha aparecido sobre si ou sobre alguém com quem tenha trabalhado?

Não. Não respondo a provocações. Sou capaz de ficar magoado mas não respondo a provocações, porque acho que não vale a pena. Falo por mim e o que faço fala por mim. Se gostarem gostam, se não gostarem não gostam. Não obrigo ninguém a comprar as coisas e a gostar de mim. Sabes o que é? O ser humano neste momento dá valor a coisas que não são as mais certas da vida. Não reparas nisso? A vontade de protagonismo, a vontade de ser estrela, de ser mais do que o vizinho, de ser melhor, de ser mais conhecido, idolatrado. Para quê, o que é isso? Porque é que não temos brio com o que fazemos para a sociedade, para o mundo? Não era muito melhor? Antes de se preocupar com a pose, com o "elan", com o "néon", porque é que um gajo não se preocupa em trabalhar para isso? Há coisas muito mais simples na vida, mais bonitas.

Aparece no topo da lista dos autores mais bem sucedidos de 2000, é legítimo dizer que ganha muito dinheiro e que não estás mal na vida. Teria a mesma opinião em relação a esta discrição que mantém se não estivesse tão bem? Se não ganhasse o dinheiro que ganha, se calhar sentiria mais necessidade de aparecer.

Será? Aparecer não dá dinheiro. Mas essa é uma questão muito pertinente. Mas nunca me movi pelo dinheiro. Não vou dizer que não ganho bem, claro que ganho bem, trabalho e o meu trabalho é remunerado. Graças a Deus " e é sempre a Deus que eu agradeço ", sou bem sucedido no que faço. Posso considerar-me um homem feliz, vivo bem, não passo fome e posso comprar uma guitarrinha quando me apetece e posso ter o estúdio que tenho. Não vou mentir, dizer que não se ganha umas coroas na SPA, isso é mais que lógico, não vou estar aqui com falsas modéstias. Mas se fosse num país estrangeiro, dava muito mais dinheiro. Porque um grande êxito em Portugal são 200 mil discos, mas no estrangeiro esses 200 mil representam nada, absolutamente nada. Só aos 10 milhões é que são grandes "smash hits". Isso não quer dizer nada. Mas estou bem. Trabalho no que gosto e não passo fome. Mas se não tivesse tanto dinheiro" Aparecer nunca foi o meu forte. Nunca consegui pisar ninguém para aparecer à frente. Nunca consegui ser pessoa de ir a festas e agarrar-me aos conhecidos só para ser conhecido também. Nem tenho estômago, tenho vergonha e não ia usar isso porque acho que o meu aparecer não era muito eficaz. Não conseguiria aparecer tanto como muita gente que é profissional na pose " profissão: poseur " e acho que não ia ser bem sucedido. Agora se não tivesse a profissão a correr bem, como está a suceder neste momento, que ia lutar, isso ia. E continuo a lutar. Não penses que é fácil, é mais difícil manter do que chegar lá. Continuo a trabalhar muito e se não tivesse conseguido continuaria a fazer a mesma coisa que faço agora e a fazer música.

Tem escrito alguma coisa fora da música ligeira?

Estou sempre a fazer coisas fora da música ligeira mas não são conhecidas. Aliás, tenho centenas de canções rock, de um rock mais pesado até. Tenho centenas de caixas em casa, inéditos. E tenho feito discos e brincadeiras aí no estúdio, que às vezes nem chegam a ver a luz do dia. Escrevo para mim, muito.

Há algum artista com quem gostasse de trabalhar, alguém que admire mas com quem nunca tenha tido oportunidade de trabalhar?

Eu gosto muito de trabalhar com quem trabalho e gostava muito de trabalhar com quem não trabalho. Admiro muitas pessoas, mas não quer dizer que gostasse de trabalhar com elas. Estou muito atento ao que se faz, mas não há assim particularmente uma pessoa com quem eu gostasse de trabalhar neste momento. Agora, a pessoa com quem gostava mais de trabalhar, fora daquilo que faço, é o Butch Vig, o produtor [e baterista] dos Garbage. Era um gajo com quem eu gostava imenso de trabalhar. Há muitos produtores, mas gosto imenso do trabalho dele " o gajo é inovador para caraças.

Ricardo Sérgio

ENTREVISTA PUBLICADA NO SITE NETPARQUE EM JUNHO/2001

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