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EMPRESÁRIO DE SUCESSOS

«A minha profissão não existe», diz o road manager do grupo português de maior sucesso no estrangeiro, o Madredeus. Pioneiro da produção profissional de espectáculos no nosso país, Fernando Marrucho, de 38 anos, tem ideias muito claras sobre o que caracteriza este sector de actividade. Que, embora próspero, continua a não ter enquadramento legal satisfatório.

Em português corrente, não há uma palavra própria para designar a profissão de Fernando Marrucho. «Sou um gestor operacional de grupo. A expressão não existe, fui eu que a inventei.», diz, com a boa disposição de quem faz aquilo de que gosta. O grupo em causa é o Madredeus, nem menos. Marrucho é aquilo que na gíria internacional do seu ofício se chama road manager. Talvez o único, em Portugal, a poder com rigor designar-se por road manager internacional, a categoria superior do seu ramo. Mas o que é isto de gerir operacionalmente um grupo de fama mundial como o de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães?

«A minha própria filha tem dificuldade em explicar na escola aquilo que eu faço», afirma Fernando Marrucho. «Isto porque a minha profissão não existe em Portugal. Não existe no código de profissões do IVA: para as Finanças eu sou músico e, como tenho a minha própria companhia de produção de espectáculos, posso ser considerado também um empresário.»

Mas não é só a profissão de Marrucho que «não existe». Segundo ele mesmo apurou, num levantamento que fez para a empresa de que é sócio, a União Lisboa, quase nenhuma das profissões do universo dos espectáculos em Portugal está regulamentada por lei. «Na verdade, o sector não é reconhecido oficialmente», diz. «As profissões não existem porque não existe formação, o que torna o recrutamento de pessoas muito difícil. Não existindo formação, não existe carreira. Isto aplica-se a quase tudo: segundo o site do Instituto Nacional de Estatística, ainda há bem pouco tempo existiam zero técnicos de som em Portugal...»

Quatro dezenas de profissões

Produtores, produtores executivos, directores de cena, roadies, operadores de áudio e de iluminação - tudo aquilo que faz do espectáculo um espectáculo - somam por junto cerca de quatro dezenas de profissões não reconhecidas por lei, mas de importância fundamental para este ainda titubeante, mas florescente, sector da Economia. Ninguém sabe ao certo quanto vale este negócio, por falta de estudos de mercado, mas as «estimativas pessoais» de Fernando Marrucho apontam para verbas «algures entre os 12 e os 60 milhões de contos/ano». E acrescenta, como exemplo: «Há empresas, sejam de equipamentos de som sejam de agenciamento de espectáculos, que já facturam mais de um milhão de contos.» O que ainda torna mais inconcebível o facto de não haver regulamentação: «As empresas existem, funcionam, pagam impostos como se fossem outra empresa qualquer, sabendo nós que em muitos casos a actividade é sazonal.»

Países como a França ou a Holanda resolveram esse problema através de «um esquema de descontos que é ponderado em função do trabalho efectivo, o que permite a uma pessoa que trabalha dois anos e depois fica um sem trabalhar - porque, por exemplo, o grupo decidiu não dar concertos durante um ano -, permite-lhe ter acesso a um subsídio que lhes vai permitir sobreviver».

Em Portugal, Fernando Marrucho reconhece que «o sector não precisou da mão do Estado para existir» e que «apesar de todas as dificuldades, os grupos existem e fazem o seu trabalho». Mas lamenta que não tenha havido «uma política cultural a sério» nos últimos 20 anos: «É inconcebível que, se eu tiver um projecto artístico que seja rentável para um teatro de duas mil pessoas só tenho Lisboa e Porto para o fazer. O Ministério da Cultura deveria estar estreitamente ligado à construção de infraestruturas e pelo menos cada distrito deveria ter um teatro de 2000 pessoas que permitisse assistir a espectáculos de companhias internacionais ou grupos nacionais que não vão a essas terras porque é impossível rentabilizar esses bons espectáculos com auditórios de 300 pessoas.» Reconhece que «houve municípios que se substituíram ao Estado nessas funções, mas como têm parcos recursos, fazem auditórios pequenos» e que «o poder municipal é a mola de sustentação de muitos artistas, porque são os únicos promotores que permitem que espectáculos de qualidade sejam levados à cena».

Dinheiro deitado à rua

Mas as carências continuam a ser muitas e a falta de dinheiro não justifica tudo. Por vezes, garante, «pura e simplesmente deita-se dinheiro fora». Um exemplo: «Na altura da Expo, em que houve condições excepcionais para a criação de equipamentos em Lisboa, construiu-se o Teatro Camões, que tinha 800 e tal lugares e custou perto de dois milhões de contos. O Ministério da Cultura decidiu depois instalar lá a Companhia Nacional de Bailado e percebeu-se que o palco era pequeno demais. Então, vá de deitar abaixo e fazer um palco maior, o que reduziu a lotação para 400 e tal lugares. Já era pequeno, já tinha custado caro e tinha sido mal planeado, ficou ainda menor.» Outro caso a merecer reparos de Fernando Marrucho é o Pavilhão Atlântico, «uma estrutura que custou 16 ou 17 milhões de contos, ao nível das melhores do mundo para espectáculos indoor em condições, mas cuja filosofia comercial hoje poderá ser discutível, uma vez que eles constituíram-se a si próprios como produtores de espectáculos e alugam aquilo de uma forma tão cara que, nalgumas condições, talvez não permita a realização de espectáculos.» A ser ver, «é discutível se, tendo recebido capitais públicos para fazer o Pavilhão, como produtores não estarão a fazer uma espécie de concorrência desleal», diz. E acrescenta: «Se tivesse 17 milhões de contos, fazia pelo menos nove auditórios de duas mil pessoas em todo o país. Isso implicava obviamente uma política de contenção e de rigor, para que não acontecesse como com o Centro Cultural de Belém que era para custar 16 para cinco módulos e custou 40 para três». Tudo, diz, porque «não há a contratação dos peritos certos, as coisas funcionam um bocado por interesses: é adjudicado o concurso, mas não há especialistas, depois as coisas têm que ser refeitas e os custos disparam.»

Apesar de tudo, Fernando Marrucho não se arrepende da opção que tomou em 1981, quando, já matriculado no curso de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, aceitou ser o road manager dos UHF - ao tempo a banda de maior sucesso mediático e social. Antes trabalhara, durante um ano, com os Iodo, um grupo surgido na fase dourada do impropriamente chamado rock português. Com o grupo de António Manuel Ribeiro esteve Fernando Marrucho até 1987, com uma interrupção de dois anos para estudos.

«Antes de 1980, era a pré-história do show business em Portugal», afirma. «De então para cá muita coisa mudou, felizmente, para melhor. «Ainda sou do tempo em que um artista com a categoria do José Afonso cantava em cima de carroças, pura e simplesmente porque não havia quem soubesse montar um palco», lembra. Depois «começaram a aparecer estúdios, desenvolveram-se condições de transporte, criou-se um circuito possível de espectáculos, produtores e promotores foram aparecendo e foram-se criando condições objectivas ao longo dos anos». E hoje, garante, «temos em Portugal elementos técnicos ao nível dos melhores do mundo». Dá exemplos: «os casos do Pedro Leston, que é talvez o melhor designer de iluminação do hemisfério norte - e digo isto porque não conheço os do hemisfério sul - ou do António Pinheiro da Silva, que é um grande mestre de som, e muitos outros». A indústria também se desenvolveu graças a esforços individuais. Cita ainda o caso da Supershow, empresa de Cavaco Malagueira que lidera o mercado das estruturas de palco. Pessoas a quem reconhece «a tenacidade, a ousadia e a visão» necessárias para conseguirem fazer o que fazem os melhores.

Estas características estão próximas daquilo que os mais próximos atribuem ao próprio Fernando Marrucho. Depois dos UHF, especializado, entretanto, em electroacústica, foi gerir uma companhia de equipamentos, onde se deu conta das carências do mercado na área da instalação de equipamentos - em discotecas e salas de espectáculos. E decidiu criar a sua própria companhia, a União Lisboa. Coube-lhe assim, por exemplo, fazer o projecto e a instalação da Gartejo, e instalar o som do Coliseu, em 1994. Nessa altura era já, também, director técnico dos Delfins, tal como fora do projecto Resistência. Então, por ocasião da rodagem da «Lisbon Story» de Wim Wenders, Fernando Marrucho foi convidado a desempenhar essa tarefa com o Madredeus. A possibilidade de trabalhar com um grupo desta dimensão era, naturalmente, sedutora e Marrucho não hesitou: «Depois de ter andado vários anos a percorrer o país, tinha agora a possibilidade de fazer o mesmo com o mundo».

Dimensão internacional

A dimensão internacional dos Madredeus, com «operação regular em 30 e tal países e territórios» levanta questões e problemas específicos, que cabe a Fernando Marrucho resolver. «Desde os problemas fisiológicos causados pelas diferenças horárias e as muitas horas de voo até à coordenação do espectáculo», nada escapa ao olhar atento e experiente de Fernando Marrucho.

Gerir um grupo como o Madredeus é já como gerir uma empresa de dimensão razoável. Um espectáculo pode mobilizar directamente, dependendo do espaço, entre vinte a trinta pessoas. Como «gestor operacional de grupo», as suas funções vão da gestão propriamente dita, contabilidade incluída, até aspectos de protocolo e diplomacia - em que Fernando Marrucho se tornou um expert, a ponto de ter sido nomeado o responsável pelas questões protocolares durante a visita do Dalai Lama a Portugal. Para garantir o cumprimento eficaz dos compromissos do Madredeus, Marrucho tem que dominar disciplinas tão diferentes como a física, a mecânica, a electroacústica ou a luminotecnia, a segurança, a comunicação. «A minha responsabilidade é receber a estratégia delineada e aplicá-la durante as viagens do grupo». Dito assim até parece simples, mas na verdade isto implica o controlo de toda a logística da banda, quer em termos de equipamento, da estadia e alimentação, o cálculo dos trajectos, as programação das entrevistas e as actividades profissionais paralelas para a rádio, a televisão e os jornais. «Tudo de maneira a rentabilizar o tempo ao máximo, de modo a dar às pessoas o máximo de descanso possível», explica. «Passamos muito tempo em hotéis, em aeroportos, em aviões e em salas. O tempo que resta, à parte uma ou outra motivação exterior que possa haver, é quase todo para descansar. A minha função é optimizar a disposição dos dez elementos da comitiva para que, no momento do concerto, o 'pico' de disposição esteja no máximo. Cada pessoa é uma personalidade, cada um é um mundo em si. Conseguir conciliar e harmonizar essas especificidades em prol de um objectivo comum - é basicamente essa a minha tarefa.»

Com salas sempre cheias onde quer que se apresentem, e mais de dois milhões de discos vendidos no mundo inteiro, os Madredeus tornaram-se um dos casos mais curiosos de sucesso internacional de um produto musical português de qualidade - o que não é negado sequer por quem os considera o Mateus Rosé da música portuguesa. Para Marrucho, o grupo de Pedro Ayres é «um atelier permanente de criatividade, tanto dos músicos como da equipa que projecta o espectáculo». Uma coisa que «se paga com o corpo, porque implica muito trabalho», mas que Fernando Marrucho não trocava por mais nada.

Viriato Teles

REPORTAGEM PUBLICADA NA REVISTA STATUS - SEMANÁRIO ECONÓMICO OUT-DEZ/2001

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