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Quando António Variações lançou a célebre tirada em que assumia fazer uma música que estava algures "entre Braga e Nova Iorque", antes de mais nada terá confundido os seus interlocutores, incapazes de encaixar as suas canções ou mesmo o seu desempenho enquanto artista nas prateleiras existentes. Mais de vinte anos depois, aquela expressão revela-se de uma felicidade enorme: descreve a música que ele queria fazer e o programa de intenções consistentemente levado à prática durante uma carreira que não durou mais que dois anos.

Entre Braga e Nova Iorque era onde ele se encontrava - quer se deslocasse em romaria à terra natal ou em excursões noctívagas à Big Apple. Mas era também uma metáfora que servia para descrever uma música que tanto se aproveitava das linhas melódicas do folclore minhoto como deitava mão dos ritmos de discoteca sintetizados. Ou ainda uma forma de definir o seu portentoso génio poético, que tanto encontrava inspiração nas raízes da sua infância vivida em Fiscal, concelho de Amares, distrito de Braga, como numa pulsão mística capaz de o atirar ao céu. Ou na ambiguidade do seu desabrido desempenho em palco por contraste com a "timidez" que os mais próximos dizem ter sido seu apanágio. São motivos de sobra para erguer um mito, o tal meteoro que atravessou a música portuguesa nos alvores da década de 80 para desaparecer um par de anos depois, qual E.T. que, bem vistas as coisas, até nem deixou muitas marcas na Terra. Ou são tão-só razões de sobra para que não se compreenda e para que, mais uma vez, a sua vida e a sua obra sejam apagadas do mapa, "por esquecimento ou por ingratidão", como um dia sublinhou Rui Monteiro, ex-director do semanário Blitz. O certo é ainda não se sabe com detalhe quem raio foi António Variações, hoje quando passam vinte anos sobre a sua morte e 60 sobre o seu nascimento e uma série de iniciativas (um espectáculo amanhã no Maria Matos, edição de inéditos, um livro, até um filme...).

self made man

Jaime Rodrigues Ribeiro é um dos nove irmãos de António Variações. Sete anos mais novo do que o cantor, tem escritório de advocacia em Lisboa e é um dos principais interessados na recuperação da memória de Variações. Defende o Variações "fiel às suas raízes rurais, religiosas e educacionais", mas compreende a transição de cariz urbano. "Como ele veio cedo para Lisboa, começou a cultivar outros gostos, outras formas de estar e atitudes. O António só tinha a 4ª classe mas era um 'self-made man'. Apenas tinha a instrução primária."

Chegado à capital aos 12 anos, António Joaquim Rodrigues Ribeiro foi acolhido em casa de uns primos e empregou-se como marçano ("distribuía mercearias em casa dos clientes") e mais tarde, depois de tirar um curso de tipografia, como escriturário. Mas não era isso que mais ambicionava, pois nas férias da Páscoa ou do Natal, quando subia ao Minho para rever a família, demonstrava o seu interesse pela música, o fado em particular. "Passou a ser amante do fado, sobretudo da Amália, o grande ídolo. Quando ia ao Minho, levava revistas onde se falava da Amália, foi ele que nos cultivou o gosto do fado, coisa que não se ouve no Minho. Cantava fados da Amália lá no quintal, o que para nós era desconhecido. O que é certo é que gostávamos de ouvir", continua Jaime Ribeiro quando discorre sobre o gosto pela música que então a família descobria em António.

"Recordo-o também, quando ele já tinha vinte e tal anos, numa dessas férias, a compor uma canção relacionada com a aldeia. Lembro-me da letra - 'todas as manhãs, bem antes do sol na montanha despontar; era acordado pelos camponeses que passavam a cantar; sempre a mesma animação; e eu senti então uma vontade louca de os acompanhar'. Este é um quadro muito próprio da nossa aldeia, pois próximo da nossa casa existia uma quinta para a qual se dirigiam ranchos de jornaleiros que passavam muito cedo, cantando enquanto se dirigiam para o trabalho. Isto é um paradoxo porque hoje vivemos num mundo de tristeza em que as pessoas têm tudo mas andam sempre cabisbaixas." António Variações nunca viria a gravar esse tema.

Depois do escritório veio a tropa. Em 1964, António foi destacado para Angola, durante a guerra, onde veio a operar na retaguarda, como especialista em mensagens cifradas. Cumpriu a comissão de três anos e quando regressava a Portugal, mesmo depois de cumprir o serviço militar, não podia sair do país sem autorização da polícia política dado estar em posse do sistema de descodificação de mensagens confidenciais do Exército. É com um certo enlevo que o irmão mais novo descreve as fotografias que António enviava do Ultramar, em situações diversas como quando estava a banhos num rio ou, "o que me espanta muito - porque ele quando veio para Lisboa deixou de praticar a religião católica -, rodeado de meninos negros a dar catequese."

Cumprida a comissão, António regressou a Lisboa e começou a viajar para Londres - onde ainda hoje se encontra outro irmão, José, que também seguiu o ofício de barbeiro - e Amesterdão, onde viria a aprender essa arte. Nessas viagens "desenrascava-se a lavar pratos para arranjar alguns trocos" e quando chegou a Lisboa foi trabalhar para os salões de Isabel Queiroz do Vale, no Centro Imaviz, primeiro, e no Centro Comercial Alvalade, depois, onde trabalhou com Zé Carlos.

"Para a família foi uma surpresa ele enveredar por essa profissão - barbeiro, pois não admitia que lhe chamassem cabeleireiro", prossegue Jaime Ribeiro. Foi nessa altura que António comunicou ao irmão o seu gosto pela composição de canções. "Soube mais tarde que ele até tinha assinado um contrato com a Valentim de Carvalho, em 1977 ou 1978. Não sei em que contexto, penso que enviou uma maqueta e eles acharam que aquilo tinha pernas para andar."

lisboa, nova iorque, amesterdão

Na altura António já actuava ao vivo, em discotecas de Lisboa como o Trumps, acompanhado do seu grupo Variações. Mas a demora em cumprir o contrato por parte da editora fez com que pedisse ajuda ao irmão recém-licenciado em Direito, que então enviou uma carta para a companhia discográfica sugerindo a resolução do caso, que se resumia à gravação de um single. "Quando fiz essa intervenção estávamos em 1980. Passados uns meses ele disse-me que a carta tinha dado resultado e que a editora já o tinha contactado para entrar em estúdio. Fiquei surpreso porque não acreditava muito nas potencialidades do António mas o certo é que gravou mesmo o maxi-single 'Povo que lavas no rio' / 'Estou Além'."

Essa primeira gravação, nos estúdios de Paço d'Arcos, foi produzida por Ricardo Camacho (Sétima Legião, hoje clínico no Hospital Curry Cabral) e viria a ser editada em 1982. Até então, a editora debatia-se com as dúvidas sobre onde encaixar o novo artista, o tal que estava "entre Braga e Nova Iorque" e que tinha por interlocutores ora Nuno Rodrigues (da Banda do Casaco) ora Mário Martins (produtor de Marco Paulo, entre outros), à época responsáveis pelo departamento de Artistas & Reportório da editora. Jaime Ribeiro ainda lembra os tempos em que António foi mordomo, em 1981, das festas religiosas da paróquia onde nascera ou a adoração que sempre dedicou à mãe - e que o levaria a compor "Deolinda de Jesus", incluído no segundo álbum. Mas a partir do momento em que editou o disco de estreia, "Estou Além" (1982), António Variações viu a sua imagem projectada para todo o país. O choque causado pelas sua apresentações nos programas de Júlio Isidro, por exemplo - onde se estreou vestido de comprimido -, ou pelos telediscos que gravara iria dar que falar.

Teresa Couto Pinto trabalha hoje em produção de cinema e teatro e foi a primeira agente/manager de Variações. "Descobriu-o quando trabalhava numa loja chamada Parafernália, num centro comercial perto da Rua Castilho onde também estava o Manuel Reis [que viria a lançar outras lojas e clubes como o Frágil e o Lux], o Quintela, a [estilista] Manelinha Gonçalves da Loja Branca... O António ia lá muitas vezes e uma vez vendi-lhe uma 'liseuse', porque ele era coleccionador de peças de decoração - tinhas colecções que guardava numa arrecadação do terraço. Ele costumava ir às sete da manhã para a Feira da Ladra, com uma lanterna, comprar coisas. Conheci-o quando ele lançava ao vivo o 'Toma o comprimido', no Trumps, na altura em que ele me pediu para tratar das coisas dele. Era acompanhado por uma banda que se chamava Os Anjos e da qual faziam parte o Francis [ex-Xutos & Pontapés, ex-UHF, ex-Ravel] e o Carlos Barbosa. Não me recordo dos outros porque não costumava assistir aos ensaios. Sei que o Dino [recentemente falecido, quando já era dirigente da comunidade Hare Krishna em Lisboa] fazia de comprimido."

As memória que Teresa guarda de António estão mais perto de Nova Iorque do que de Braga. Relembra os tempos dos "vanguardistas" no Bairro Alto de Lisboa e concede a Variações um papel de pioneiro, algo afastado das suas raízes familiares. O outro lado da questão, portanto. Lembra-se de concertos memoráveis, como um fim-de-ano na discoteca Summertime, no Algarve, e outro na Horta da Fonte, no Cartaxo: "O carisma do António era incrível. Em Peniche, onde íamos às lojas de velharias, as pessoas paravam na rua para o cumprimentar e para lhe darem os parabéns. Ao mesmo tempo, ele era aceite pela elite de Lisboa e do Bairro Alto, que na época comandavam a moda em Portugal. O Manuel Reis tentava convencê-lo a deixar a barbearia da Rua de São José e a instalar-se no Bairro Alto, que era o sítio onde ele devia estar."

De Lisboa a Amesterdão foi outro pulinho, e pretexto para inúmeras viagens de Variações até à Holanda. "Teve um namorado que foi muito importante na vida dele, o Balder, que era actor e que vinha cá frequentemente. Apesar de o António não falar da sua intimidade, ele foi muito importante. Porque era uma pessoa com outra vivência, pois vivia na Holanda, onde se passava tudo nos anos 80. Cá não existia abertura nenhuma e ir à Holanda era uma experiência mística. O António prezava muito a opinião dele, a ponto de serem quase almas gémeas. Foi aí que o António começou a ir às discotecas onde despontava a música de dança, mas ele ia a todo o lado onde existissem novidades."

Em Lisboa, Teresa lembra-se da Festa do Pós-Modernismo, na Sociedade de Belas-Artes, por ocasião do lançamento da revista "Destaque" de Leonel Moura, em que Variações foi vestido com uma rede de capoeira, mas sobretudo dos inúmeros concertos em que era convidado para actuar. "No Verão em que ele morreu desmarquei mais de uma centena de espectáculos. Era um disparate de concertos seguidos, muitas vezes com duas datas no mesmo dia. Cobrava 170 contos por concerto [cerca de 600 contos ou três mil euros, a preços de hoje], o que já era dinheiro."

Vítor Rua, juntamente com Toli César Machado, na altura seu colega nos GNR, constituíram a equipa que produziu o primeiro álbum de Variações, "Anjo da Guarda". Viriam a ser substituídos mais tarde por Moz Carrapa, que completou os trabalhos, mas para Vítor Rua (hoje nos Telectu) a colaboração com Variações não deixou de ser marcante: "Ele era muito tímido, o que até pode parecer um paradoxo. Quando ia lá a casa ficava muito calado enquanto o Jorge [Lima Barreto] nos mostrava música e falava sobre música. Ele era uma esponja, não conhecia música electrónica de Stockhausen ou Xenakis, mas quando ouvia, gostava e isso ficava-lhe estampado no rosto. Gostava muito de jazz. Lembro-me dele maravilhado com as coisas que lhe mostrávamos." Rua lembra também o episódio em que Variações, em estúdio, lhe pediu uma música "que fizesse a terra tremer", e como então gravou várias pistas num sintetizador que viriam dar origem ao tema "Visões-ficções (Nostradamus)".

Carlos Maria Trindade, com Pedro Ayres Magalhães, colaborou intensamente nas sessões de gravação do segundo álbum, "Dar e Receber", no qual, aliás, participaram todos os outros membros dos Heróis do Mar, que já conheciam António desde o final dos anos 70 (uma das mais conhecidas fotografias do Corpo Diplomático foi tirada na barbearia de Variações). Já António mostrava evidentes sinais de cansaço e de comoção, como quando gravou a faixa "Deolinda de Jesus", dedicada à sua mãe, e que terminou num pranto. Ou quando pedia para descansar entre cada "take". No entanto, até perto do fim nunca dispensou as idas diárias ao ginásio, para fazer musculação e natação, ou os sumos de frutas que bebia e que lhe garantiam aquele "cabedal". "Não tomava drogas", relembra Teresa Pinto Couto.

Faleceu na noite de Santo António (tal como Fernando Pessoa) em 1984 e no Hospital da Cruz Vermelha, onde estava internado no serviço de doenças infecto-contagiosas. A certidão de óbito dá como certa uma broncopneumonia bilateral extensa como a causa da morte, mas os cuidados postos na selagem do caixão levam a crer que era seropositivo e que foi uma das primeiras vítimas de sida em Portugal, o que não foi confirmado pelos médicos. Teresa Pinto Couto alternava com Jaime Ribeiro as noitadas passadas no hospital e o irmão ofereceu-lhe uns auscultadores para que pudesse ouvir as suas novas músicas tocarem na rádio. Os Heróis do Mar levaram-lhe as provas da capa do álbum. Ele só pedia, confirmou Carlos Maria Trindade, "que o tirassem dali".

ARTIGO DE MIGUEL FRANCISCO CADETE / PÚBLICO / 09-07-2004

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