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Todos conhecem a história da mítica editora inglesa Factory, contada várias vezes e até registada no altamente ficcionado filme de Michael Winterbottom, "24 Hour Party People". O que muitos ignoram é que Portugal também teve a sua Factory – a Fundação Atlântica, fundada em 1983 por Miguel Esteves Cardoso, Pedro Ayres Magalhães e Ricardo Camacho. A Fundação durou até 1985 e produzia e prensava discos que eram distribuídos pela Valentim de Carvalho.

Miguel Esteves Cardoso era jornalista e tinha estudado em Oxford. Foi correspondente de publicações portuguesas em Manchester, onde acompanhou a evolução da Factory e criou uma extensa rede de contactos. Pedro Ayres Magalhães era membro dos Heróis do Mar e estudante de Psicologia. Ambos eram amigos de infância. Ricardo Camacho era médico, músico e produtor. Trabalhou com Miguel Esteves Cardoso pela primeira vez num single de Manuela Moura Guedes. Foi após este lançamento que as três figuras centrais da Fundação começaram a pensar em fazer algo pela música do seu país, e foi assim que a editora nasceu.

Segundo Ricardo Camacho, a Fundação funcionava anarquicamente: "na altura éramos pessoas com muitas ideias e sem sentido prático. Poderíamos ter tornado a história da música portuguesa diferente se tivéssemos conseguido sobreviver mais dois ou três anos. A Fundação desapareceu numa altura em que os seus grupos atingiram vendas que lhe teriam permitido subsistir mais tempo e também avançar com outros projectos que nunca chegaram a realizar-se."

Dentro da editora, Camacho dirigia a produção, Magalhães o reportório e Cardoso era o Director-geral da companhia, enquanto outros tratavam da gestão comercial, da questão jurídica, da imagem, das actividades de promoção e informação e das actividades externas de divulgação: "o Miguel tratava dos contactos com Inglaterra. Eu e o Pedro trabalhávamos em estúdio. E discutíamos muito, tínhamos muitas ideias, nem todas eram convergentes. Mas era giro."

"Na Fundação da Fundação: Os Nossos Primeiros Propósitos", primeiro comunicado público da editora, foi escrito por Miguel Esteves Cardoso em 1983. O documento expunha as ideias da Fundação. Esta pretendia fazer com que a exportação excedesse a importação e contribuir para aumentar a quantidade de produção nacional no estrangeiro. Usando pouco dinheiro, pretendia cortar com todas as despesas extra e canalizar todos os meios para a produção. Utilizou uma "estética da pobreza", ou seja, procurava qualidade sem gastar dinheiro. Nunca houve dinheiro próprio da editora, pelo que as despesas eram suportadas pela Valentim de Carvalho.

Ricardo Camacho explica: "Agora gravo coisas em casa, antigamente tínhamos que ir para estúdio gastar dinheiro. Por isso, ao fazermos um único disco, estávamos endividados durante muito tempo. Foi isso que rebentou com a Fundação Hoje teria sido diferente."

Tanto Ricardo Camacho como Miguel Esteves Cardoso falam das pessoas da Fundação como jovens inexperientes. Camacho diz que um dos factores que levou ao fracasso da editora foi a existência de gente com personalidades muito fortes dentro da mesma. "Não existia uma liderança. Por exemplo, na Factory havia uma personalidade muito forte, o Tony Wilson, como nas outras editoras independentes. Toda a gente queria fazer o que lhe apetecesse. Isto não é viável numa editora sem meios."

Os discos nacionais da Fundação, na sua maioria singles, eram de artistas como Sétima Legião, Delfins ou Xutos & Pontapés. A Fundação lançou também discos estrangeiros, quase todos licenciamentos de editoras inglesas. Entre os artistas estrangeiros da editora, encontravam-se nomes como The Raincoats ou Young Marble Giants.

Os objectivos que a Fundação propunha cumprir eram difíceis. A editora acabou por fracassar economicamente. Ricardo Camacho explica: "Tivemos a ideia de transpor para Portugal a experiência inglesa das editoras independentes. Era um fenómeno desconhecido em Portugal, que o Miguel tinha trazido de Inglaterra. Não o fizemos da melhor maneira, e como pioneiros cometemos todos os erros que os que vieram depois puderam evitar. Erros de relacionamento e avaliação do mercado e de distribuição."

A Fundação não chegou a ter sucesso, existindo com dívidas e fracassos. Para Camacho, a Fundação "podia ter dado uma verdadeira editora, verdadeiramente independente, e com capacidade económica para prosseguir um projecto próprio. Dispersámo-nos por coisas sem lógica que não encaixavam naquilo que devíamos estar a fazer. Gastámos imenso dinheiro num projecto que nunca viu a luz do dia, que inclusivamente o Pedro Ayres Magalhães foi gravar a Manchester. Pessoalmente, gostaria de ter concentrado as atenções da Fundação na Sétima Legião, nos Xutos, e naquilo que viriam a ser os Madredeus."

Curiosamente, a história da Fundação, que tudo teve a ver com a da Factory, acabou até por se cruzar com a história da editora britânica.

Miguel Esteves Cardoso convidou uma das bandas do catálogo da Factory para gravar em Portugal: os Durutti Column, projecto do guitarrista Vini Reilly, que vieram gravar um single. Acabaram por gravar um disco inteiro, "Amigos em Portugal". Ricardo Camacho conta que "Reilly estava habituado a gravar com poucos meios, chegou cá e viu equipamento como nunca tinha visto. O Tony nunca lhe tinha pago um estúdio. Foi assim que conseguiu experimentar coisas novas e criar aquele som."

A história não acaba aqui. Havia um acordo entre a Factory e Vini Reilly que fazia com que a editora desse ao artista 50% das vendas totais, descontando os gastos com tempo de estúdio. Não se sabia se este acordo era válido para todo o mundo. A lei portuguesa especificava que apenas se podia dar menos de 20% das vendas. Os ingleses acabaram por ficar extremamente desiludidos por causa do dinheiro.

Esta é a versão portuguesa da história. Tanto Wilson como Reilly contam outra versão. Wilson, na reedição de "Another Setting", um dos discos dos Durutti Column, escreve, a seguir a uma contextualização histórica dos defeitos dos portugueses: "Amigos em Portugal. Amigos em Portugal? Uma vez queixei-me à minha primeira mulher que o álbum tinha posto a empresa do Miguel e dos amigos a andar, e mesmo assim quando o Vini tocou em Lisboa seis meses depois nem um deles apareceu no concerto. Porque é que haviam de ter aparecido? Honra, gratidão, dívida. Que estupidez, eles são portugueses, não têm tais conceitos mundanos."

Tanto Miguel Esteves Cardoso como Ricardo Camacho se apressam a refutar isto. Cardoso explica que foi a todos os concertos que Vini Reilly deu em Portugal, enquanto Camacho explica que os Durutti Column chegaram mesmo a tocar com equipamento da Sétima Legião.

Tanto Tony Wilson como Vini Reilly julgam que "Amigos em Portugal" deu muito dinheiro à Fundação e fez da editora um sucesso, quando, na verdade, nada disto parece ter acontecido.

Hoje em dia é muito difícil encontrar os discos que a Fundação lançou entre 1983 e 1985. A última edição da editora saiu com o selo da editora mas pela EMI-Valentim de Carvalho. Era um single de Pedro Ayres Magalhães, "O Ocidente Infernal/Adeus Torre de Belém". Foi este o adeus de uma editora que ambicionou fazer algo pela música do seu país como nunca havia sido feito, e como nunca se chegou a fazer.

Rodrigo Nogueira - publicado originalmente n'Os Fazedores de Letras número 62 de 2005, adaptado

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