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Há uma mania tradicional portuguesa de condescendência para - como e usual dizer-se o que é nosso. Dito de outra maneira, é comum entender-se que o facto de alguma coisa - um disco, um filme, uma batedeira de claras de ovos, uma telenovela, umas calças de ganga falsificadas - por ser produzida no Pais, por cidadãos nacionais ou nacionalizados, não precisar de ser bom para ser apreciado. É o contrario de dizer «é português e basta» - que e a outra face da moeda.

A expressão mais odiosa que conheço é «Para uma coisa feita cá não é mau», como se todos nós fôssemos uns menores mentais incapazes de enfrentar a concorrência estrangeira, obrigados a considerar bom, porque «nosso», qualquer produto que, produzido noutro pais, não teria mais consideração que a dispensada à banalidade. A outra expressão mais odiosa que conheço é «Isto é que esta a dar», aplicado por tudo e por nada como se a vida cultural não fosse mais que uma mera questão de moda. Ainda é pior do que sermos um pais de poetas.

Dito assim, estou em crer, se os Afonsinhos do Condado fossem ingleses, não teriam mais consideração do que o povo dispensa às minhocas, mas como são «nossos», até o critico de caneta mais afiada amacia a escrita. Como exemplo outro também José Fonseca e Costa e o seu filme «A Balada da Praia dos Cães» se por ventura o realizador fosse norte-americano ou francês - não merecia mais que o desdém dedicado à mediocridade desenrascada, mas como é português, ate há quem se atreva a dar-lhe mais estrelas que as aplicadas a um filme a todos os títulos notável na cinematografia mundial como «Teresa» de Alain Cavalier.

É, está visto, um mal português, parente do mesmo padecimento que permite a tantos pensarem ser artistas sem potência, apenas não revelados aos olhares da população por conta das habituais condicionantes sociais e políticas, culturais e económicas.

O percurso do caranguejo

Entrando no assunto, acontece em Portugal, de um momento para o outro, «ser português é o que esta a dar». E isto é bom, principalmente depois de tantos anos de desdém pelo trabalho de artistas pátrios, mas também é mau, por provocar um sentimento generalizado de condescendência permissor do entendimento de tanto fazer ouvir os Mler lfe Dada ou os Ena pá 2000, Amália Rodrigues ou Marco Paulo, pela razão única de todos eles serem portugueses apesar de alguns não serem maus, mas péssimos, repelentes, abjectos.

Talvez esteja a exagerar, mas é basto irritante assistir a contratações de bandas, necessitadas de mais três ou quatro anos de garagem, por multinacionais discográficas, ainda para mais quando o critério é apenas e só «o que é português é que está a dar», ou assistir a entrevistas de novos valores, ate aqui considerados muito marginais e alternativos, que ocupam o tempo de antena com a bajulação rasteira à editora. Não é triste nem é desgostoso. Mete raiva.

O que está a acontecer, aparenta-se demasiado com o início da década, quando qualquer conjunto de baile gravava desde que se afirmasse pelo - até faz arrepios escrever «rock português». Quero dizer: o que está a suceder é que dentro de um ano, ou dois, quando as editoras se fartarem de sucessivos afundamentos financeiros provocados por uma política antinatural de contratação, voltarmos a situação de só ver bandas novas no Rock Rendez-Vous ou na Fábrica, e, pior um pouco, de ver os mais interessantes projectos estéticos desaparecerem ainda antes de saberem o que é um estúdio decente.

O patrão dá licença?

Tenho para mim que é a muita conversa e os poucos actos a principal responsável pela situação que, se ainda não existe, está aí, está a bater-nos a porta. O facto de apenas uma editora independente, naturalmente a Ama Romanta, pugnar pela edição de música nacional desprezada pelas companhias discográficas tradicionais e multinacionais, é sinal evidente de não ser este o melhor caminho para a música moderna portuguesa. Quase dez anos depois do tal «rock português» - de que hoje sobram os GNR e os Xutos & Pontapés na pose «estrela de rock'n'roll» - não ter surgido nenhuma alternativa além da mui digna, mas também mui pobre, editora dirigida por João Peste, só traduz a ausência de iniciativa da maioria dos artistas, a sua incapacidade para encontrarem alternativas no terreno comercial suficientemente energéticas para não permitirem a dependência dos patrões do disco em Portugal.

O mal, não se pense, não são as contratações da Polygram ou da CBS ou da EMI-Valentim de Carvalho, pois esses representam condignamente o seu papel; o mal está nos criadores preferirem ter um patrão e temerem ser patrões de si próprios, recearem até procurar alternativas, quando, nunca se sabe - dizem alguns - «ainda aparece para ai uma editora a sério. O mal está em quererem agradar a gregos e a troianos, a Deus e ao Diabo. Em preferirem ser Fausto e não Zeus.

TEXTO DE RUI MONTEIRO PUBLICADO NO JORNAL BLITZ - 7.4.1987

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