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NO INÍCIO DOS ANOS 80, ACONTECEU O "BOOM"
OS PIONEIROS DO ROCK PORTUGUÊS

Eles fizeram o motim do rock cantado em português. Na recessão do canto-livre pós-revolucionário, Portugal descobriu que os sons do rock podiam ser cantados na língua cá da terra. Entra-se nos anos 80 e, com eles, rebentam dezenas de bandas num mercado discográfico em que valia tudo. Tudo se gravava desde que soasse a rock e em português. Louco e explosivo como foi, não durou mais do que dois anos este "boom". Depressa lhe sucedeu o "bum!" inverso. Quase todas estas bandas se perderam pelo caminho. Fosse por ingenuidade, falta de solidez nos projectos, escolha voluntária ou desencanto. (...)

Foram poucos os que, depois do sucesso atingido neste período, se aguentaram à impulsão dos anos que se seguiram. Os GNR, com uma formação já bem diferente da original, os UHF, nos quais só mesmo António Manuel Ribeiro permanece desde a origem, e o pioneiro de todos os pioneiros, Rui Veloso, não chegam sequer para fazer uma mão cheia. Todos os outros, dezenas deles, ficaram-se pelo caminho. 

O "boom" surgiu naquela altura e não só não poderia ter aparecido antes como dificilmente se fundamentaria mais tarde. "O aparecimento de muitas bandas naquela mesma onda e no mesmo momento tem também a ver com o 25 de Abril, com o facto de já ter passado um bocado aquela euforia revolucionária e já se viver numa democracia consolidada. As pessoas começaram a ter mais dinheiro, para comprar instrumentos como para comprar discos, e havia uma abertura que não tinha havido antes, mesmo em relação àquilo que vinha de fora. (...)

Mas os tempos não se compadeciam com apostas a longo prazo. Estava-se a desbravar terreno, olhava-se para tudo com um horizonte curto: o do sucesso imediato, o das vendas retumbantes, o de "chegar, ver e vencer" nos tops nacionais, o dos discos de ouro conquistados em 30 a 60 dias. (...)

Esta foi uma década marcada pela constante edição de singles, que constitui, aliás, o maior emblema que ficou do "boom" do rock português. A popularidade pertencia aos singles. Poucas foram as bandas que chegaram a editar álbuns. E das que o fizeram, contam-se pelos dedos de uma mão aqueles que tiveram vendas que se vissem. Quem o fez, porém, fê-lo com estrondoso sucesso. Não causa grandes surpresas, por isso, que essas bandas que tiveram maiores sucessos comerciais no formato LP durante o período do "boom" sejam justamente aqueles que ainda hoje se mantêm à tona e em actividade. Senão com os projectos nascidos naquela época, como é o caso dos UHF, dos GNR e até de Rui Veloso, pelo menos com outras bandas, até de maior projecção comercial ainda, como é o caso do ex-Heróis do Mar e líder dos Madredeus, Pedro Ayres Magalhães. 

A projecção destas bandas nascidas nos primeiros anos da década de 80 não se sustentava, porém, unicamente, no lançamento dos vinis no mercado discográfico. Tudo começava com o circuito pelas "capelinhas" da época: "A Febre de Sábado de Manhã" e "O Passeio dos Alegres", ambos de Júlio Isidro, assim como o "Rock em Stock", de Luís Filipe Barros, e o "Rotação", de António Sérgio, programas de grande audiência, em rádio e em televisão, que serviram de rampa de lançamento a todas estas bandas do "boom" do rock português. 

O filão de ouro foi descoberto com "Ar de Rock" de Rui Veloso, editado em princípios de 1980. De repente, o rock'n'roll falava de figuras às quais os portugueses eram familiares. Aqui e além viam-se "chico fininhos" a subir as ruas de muitas cidades do país, de um momento para o outro dava-se conta de inúmeras "rapariguinhas do shopping" a deambular pelos corredores dos grandes espaços comerciais portugueses. O rock começava a falar de nós, das nossas coisas, das pessoas com que nos cruzávamos todos os dias. José Nogueira, o ex-saxofonista dos Já Fumega, encontra aqui uma das primeiras razões do "boom" do rock português. "Foi absolutamente inevitável. Estava a começar-se a falar dos sítios onde todos vamos, onde pelo menos já fomos uma vez, das pessoas que conhecemos ou que já vimos", explica. (...)

Talvez uma das maiores heranças deixadas pelo "boom", e que bandas surgidas já numa segunda vaga souberam tão bem aproveitar, é justamente o culto da diversidade. Apesar de todos aparecerem no mesmo saco do "boom" do rock português, houve abordagens tão diferentes que o panorama musical mudou para sempre. Muito, porém, já vinha sido feito antes do "boom". O trabalho anterior de algumas outras bandas serviu de rastilho para que estas explodissem já só na década de 80. E outras, como os Rádio Macau e os Xutos & Pontapés, que já existiam mas só ganharam popularidade depois, o fizessem também a partir de meados dos anos 80. 

Foi a "Ar de Rock", o álbum de estreia de Rui Veloso, que coube o título de marco inaugural do período de euforia pelo rock português. Mas o primeiro disco feito nesta fórmula já datava de 1967, da autoria do Quarteto 1111, que furou o bloqueio à música portuguesa com o EP "A Lenda de El Rei D. Sebastião". Só que as atenções então dadas à nova canção e ao canto livre, que emergiram no período pós-25 de Abril, lançaram para a sombra praticamente todo o movimento do rock de língua portuguesa. E foi já só num pré-"boom", em finais dos anos 70, que a tendência se inverteu, com o surgimento de bandas como os Tantra, prenunciadores de que a explosão não iria tardar muito mais.

DULCE FURTADO

ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA PÚBLICA - 14.11.1999

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