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1. A inexistência de um Rock português

Quando se fala em «Rock Alemão», não se está somente a referir-se o facto de esse rock ser geográficamente realizado na Alemanhã, mas, sim, porque no rock alemão existe uma linguagem e uma tecnologia, que o distingue de, por exemplo, um rock inglês ou americano. Nesse sentido, não existe «rock português», como não  existe «rock espanhol» ou «marroquino» ou «rock italiano», existe sim um rock feito em Portugal, uma vez que nunca nesta tipologia se conseguiu criar uma gramática musical (adoptada por vários músicos ou grupos de músicos), que fosse própria da nossa tradição musical.

2. Rock em Portugal

Não querendo fazer uma lista cronológica de nomes de músicos ou grupos rock portugueses, muitos deles já desaparecidos das cenas musicais, ou então intrometidos nas lides do comercialismo e da música ligeira, vou limitar-me, assim,  à citação de factos - tipo flash -  por ordem nem sempre cronológica, de diversos músicos ou grupos que de alguma maneira contribuíram e contribuem para a evolução e dignificação do Rock em Portugal.

Se passo à frente os anos sessenta, não é porque desconheça o que se fazia então cá (o que é verdade), mas mais porque tudo o que se fez é totalmente irrelevante. Excepção, para o grupo Top Notes, que em 67 e 68, e duma maneira marginal às imitações do rock inglês que então proliferavam, fazia experimentações tímbricas, chegando a actuar com 4 baterias e 4 guitarras.

Nos anos setenta, embora o número de grupos viesse a aumentar, a qualidade musical mantinha-se baixa.

Em 73 e 74, em pleno rock «sinfónico» ou «progressivo», dois grupos aparecem na cena musical: os «pré-históricos» Arte&Oficios e os «dinossauros» Tantra, grupos que dominaram até quase finais de 70, imitando (às vezes bem) o estilo musical de superbandas como os Yes, Gentle Giant, King Krimson, Genesis, Pink Floyd; era o período dos espectáculos «audiovisuais» (som/luz/projecções), rodeados quase sempre de um Kitch e provincianismo arrepiantes. 

A chegada do Punk e da New Wave vai dar origem ao que viria a ser o «boom» do rock em portugal. No período que o antecedeu, um único grupo é digno de referência: os Corpo Diplomático.

Depois vem o "boom" e com ele uma lista infindável de nomes: os "abjectos" Grupo de Baile, os "neo-imbecis" dos Rockivários, os "comerciais" Táxi, os "proletários" UHF, passando pelos "marginais" Xutos e Pontapés, os "nacionalistas" Heróis do Mar e os "irreverentes" GNR. Se não falei em nomes como Rui Veloso ou Lena d´Água, é porque também não falo do Paco da Bandeira ou da Cidália Moreira.

Embora pobre, esse foi o período mais significativo de toda a história até aí feita em Portugal.

 Assim podemos referir o primeiro LP dos Heróis do Mar, que dava a oportunidade aos ouvintes de consumirem uma espécie de «rock português nacionalista», quer através da utilização de determinados instrumentos, quer através de letras com um carácter nacionalista, pese embora a parte instrumental, ser normalmente imitação do que se produzia lá fora.

Com o LP  "Independança" dos GNR, atinge-se um ponto alto de criação nesta tipologia musical feita. Por um lado novas concepções de produção, viriam substituir as quase primitivas técnicas, tipo: «primeiro grava a secção ritmica, depois as guitarras, depois as teclas e depois as vozes», muito utilizado no rock de cá... por outro lado eram feitas experimentações ousadas no dominio da manipulação dos sons e sua expecialização, não hesitando em se usar as mais diversíssimas formas de alteração/transformação do som: tape reverses, harmonizers, delays, distorções eram usados frequentemente como parte integrante do som e não como mero enfeite decorativo. Mas a grande importância deste disco residiu na LIBERDADE que ele representava, em especial o tema "Avarias" de 27 minutos, que ocuparia todo o lado B; com uma improvisação e produção LIVE, que iria marcar e influenciar muitos músicos posteriormente. Uma referência também, para a poética-vocalização, do Reininho de então...

3. «involução» no rock em Portugal

A partir dessa data, a maior parte dos grupos (em especial os com mais fama), optam pelo comercialismo, pela vulgaridade, pelo conformismo, dão as mãos à música ligeira, enfim, tornam-se comerciantes da música.

Mais tarde, esta onda de mediocridade viria a ser cortada por grupos como os Mler Ife Dada e em especial os Pop dell'Arte que viria de novo «definir» certas «linhas» do rock: inconformismo, revolta, mas sobretudo a liberdade que se vinha a perder cada vez mais e que com o LP "Free Pop"  foi de novo restaurada no rock em Portugal.

Também uma referência, pela sua pertinência, histórica e crítica, ao LP "Pipocas" e à performance musical «Pipocas show», espectáculo multimédia que incluía video, luminotecnia, performace e música e à antologia «Clássicos GNR».

A figura carismática de um Filipe Mendes (excelente guitarrista), o grupo Chinchilas ou o grupo Kamasutra de Pedro Taveira tiveram também importante relevo.

A fama, no rock feito em portugal, é, regra geral, em proporção inversa à qualidade. Quanto mais vulgar, ligeiro, for o músico mais atenção lhe é prestada pelos «média»...isto se pertencer a uma multinacional.

Hoje, dez anos passados ao "Boom", tudo continua na mesma no mundo inferior de certo rock «protegido»: falta de cultura entre a maior parte dos músicos, analfabetismo musical (ignoram músicas doutras tipologias musicais), 99% do rock apresentado na RTP é em playback; grupos como os Táxi são agora substituídos pelos "festivaleiros" Delfins; o Reininho virou «costureiro do rock», um número cada vez maior de caravelas, mar, Portugal, portugueses, invade o nosso rock num nacionalismo imbecilizante e retrógado.

4. A Vanguarda no rock em Portugal

É claro que existe um número (embora reduzido) de músicos ou grupos cada vez mais esclarecidos e que tentam, cada um de seu modo, alterar o medíocre panorama rock produzido em Portugal. Assim músicos como João Peste, Nuno Rebelo, Sei Miguel, o baterista Luís Desirat, Nuno Canavarro, Carlos Maria Trindade, Zé Pedro Lorena, Rodrigo Amado, Rafael Toral são nomes significativos de um rock mais culto e informado.

Recentemente, e através da minha obra Vydia, entrei em contacto com alguns destes músicos e pude verificar que bem cedo esses músicos sentiram uma necessidade de assimilar músicas de diversas culturas ou de outras tipologias. No rock isto reflectia-se na abordagem a músicas não europeias (especialmente a africana e a indiana), citações de músicas contemporâneas ocidentais, ou ainda, recorrendo à música  concreta e electrónica, influenciados pela música de Pierre Henry, Schaffer, Stockausen, Cage.

Concluí-se pois, que a haver criações originais e de vanguarda, no rock em Portugal, não será, com certeza, pelos grupos protegidos pelas multinacionais, mas sim na mão de músicos que marginalmente rodeiam esse mundo, criando a liberdade e originalidade musical necessárias à obtenção de um rock libertário. 

VITOR RUA

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL BLITZ (SUPLEMENTO MANIFESTO) - 1992

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