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Os anos 80 estão, definitivamente, na moda. Não só porque neste momento se reedita grande parte do reportório publicado na época - confirmar nas páginas de críticas de discos da imprensa especializada - como se recicla grande parte dessa herança através de novos projectos que não escondem a sua fixação no período que se seguiu à eclosão do movimento punk.

Em Portugal, e com o devido atraso, também se apanhou o comboio, até porque o "rock português" era motivo de sobra para um revivalismo do género, capaz de disponibilizar às novas gerações um legado que ameaçava perder-se entre as habituais reedições de clássicos. Mais do que às novas gerações, o revivalismo dos anos 80, verdade seja dita, dirige-se, como todos os revivalismos, à geração que, à época, vivia a sua adolescência. Aponta certeiramente aos trintões que abandonaram o lar e entraram na vida activa - isto é, ganham um salário -, são obcecados por cultura pop e, nalguns casos, ascenderam ao poder nas editoras discográficas e nos órgãos de comunicação social. Os anos 80, também por isso, estão na berra. Cá como lá.

Em 1980, David Ferreira era director de promoção da Valentim de Carvalho. Hoje é o principal responsável da EMI-VC, editora discográfica que acabou de colocar num escaparate perto de si a colectânea "O Melhor do Rock Português 1980-1984". De Rui Veloso aos Xutos & Pontapés, dos Táxi aos Rádio Macau, dos UHF aos Sétima Legião, dos GNR aos Jafu'Mega, todos eles se voltam a encontrar, agora, e pela primeira vez, numa compilação que celebra um das mais explosivas épocas da música urbana nacional: aquela em que a "arte eléctrica de ser português" ganhou decididamente rumo, a ponto de dar à luz alguns dos campeões de vendas da actual galáxia pop.

Quatro anos depois do 25 de Abril, surgia uma geração que rompia com a tradição do fado, dos baladeiros e da música de intervenção, tal como era entendida na altura, para se dedicar à escrita de canções em português, ainda que claramente inspiradas na música pop/rock anglo-saxónica. "Conseguimos reunir nesta colectânea todos os 16 artistas mais importantes daquela época, com a única excepção do 'Robot' dos Salada de Frutas, que não conseguimos licenciar", começa por contar David Ferreira. "Apanham-se três ciclos completamente distintos. Há uma primeira fase que marca a explosão, com Rui Veloso, GNR, UHF e Táxi. Depois temos o período dos 'one hit wonders', com o Grupo de Baile e os Roquivários. E há um terceiro ciclo de onde despontam as sementes do futuro: António Variações, Heróis do Mar e Sétima Legião. Temos uma explosão, um apogeu comercial com os riscos que isso comporta e um recentrar da produção com aqueles que apontam pistas novas. Nesse aspecto, a canção de Manuela Moura Guedes, apesar de ter sido editada em 1981, já pertence ao período seguinte".

boom e ressaca. A selecção de temas de "O Melhor do Rock Português 1980-1984" é da responsabilidade do jornalista Nuno Galopim. No tempo de "Chiclete" Galopim estudava no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, onde seria colega de José Pedro Moura, mais tarde baixista dos Pop dell'Arte e dos Mão Morta. Hoje é editor do suplemento "DN+" do "Diário de Notícias".

"A génese deste projecto encontra-se em dois artigos que escrevi, em 2000 e 2002, sobre a história do rock português. No primeiro falei com intervenientes do boom do rock português e no segundo abordei a fase da ressaca desse movimento. Fiz esses trabalhos recorrendo aos vinilos da minha colecção pessoal, pois a maior parte desses discos andavam esquecidos na memória dos coleccionadores. Fazia então sentido trazer para a era digital alguns desses sons que para uns são memórias mas que para outros serão descobertas de um passado de que por vezes ouvem falar mas do qual não têm noção do que se trata. O ponto de partida para um alinhamento destes teria que ser o 'Chico Fininho' do Rui Veloso e não o 'Jorge Morreu' dos UHF (que o antecedeu), porque esse foi o primeiro êxito. Resolvi começar no ano de 1980 pois foi aí que se ganhou uma visibilidade 'mainstream'. A rota das selecções levou-nos até 1984 que foi a altura em que começa a parecer uma segunda geração de bandas, como os Rádio Macau, que marcavam uma nova etapa do mesmo processo."

Na escolha do alinhamento intervieram ainda Paulo Junqueiro, responsável pelo Departamento de Artista & Reportório da EMI-VC, e o próprio David Ferreira, que passou "quatro horas ao computador a finalizar o alinhamento". A escolha incidiu nos temas mais bem sucedidos, não obedecendo a um critério rigorosamente histórico mas, ainda assim, registaram-se lacunas. A editora proprietária dos direitos de "Robot" dos Salada, não licenciou a canção pois pretende editar um "best of", e outros temas, como "Baby Suicida" de Adelaide Ferreira ou "Malta à Porta" dos Iodo, também não sobreviveram até ao alinhamento final. A aceitação que o disco tem merecido por parte dos media e do público leva, no entanto, David Ferreira a pensar num próximo tomo, que permitirá explorar outras épocas do rock português ou mesmo aprofundar o levantamento de reportório deste período que vai de 1980 a 1984.

"Se uma primeira compilação deste género optasse em excesso por temas como 'Um Puto da Rua' dos Opinião Pública, 'Destruição' dos CTT ou canções dos NZZN e dos Roxigénio, isso poderia pôr em causa a viabilidade comercial do projecto e a capacidade de, em próximos volumes, se poder continuar a contar a história e, aí sim, indo mais longe", confessa Galopim. David Ferreira adianta mesmo um alinhamento provável para esse II volume: "Podemos ir buscar mais coisas óptimas dos Heróis do Mar, dos GNR, do Rui Veloso, dos UHF, como 'Rua do Carmo'. Isso não custa nada e fazemos um segundo disco tão bom como o primeiro e com uma ou outra surpresa como este tem, pois aqui é possível encontrar coisas raras em CD como as canções do Grupo de Baile, dos Street Kids, dos Roquivários, da Manuela Moura Guedes ou o próprio 'Remar Remar' dos Xutos & Pontapés."

Essa época dourada da música eléctrica portuguesa não encontrou, desde então, igual e constitui, nas palavras do próprio David Ferreira, "uma lição para as editoras, para terem ganas. Uma lição para os artistas se lembrarem de como podem ir longe a escreverem em português, porque há uma maior proximidade com o público. É é também uma lição para os media pela abertura que demonstraram."

Em Abril de 1979 teve lugar a primeira emissão, no FM Stereo da Rádio Comercial, do programa diário "Rock em Stock", apresentado por Luís Filipe Barros e Rui Morrison. No meio de um alinhamento composto por discos de rock, muitos dos quais importados, começaram a ouvir-se produções nacionais como temas (instrumentais) dos Ananga Ranga e mais tarde Salada de Frutas ("Shui de Choque) e "Chico Fininho" de Rui Veloso que viria a escalar o tope de preferências do "Rock em Stock" ao lado de nomes como The Police ou Cheap Trick.

Noutro espaço radiofónico, Jorge Pêgo panhava a onda do rock português no "TNT", apresentando mais tarde, na televisão, o "Vivámúsica", que exibiu os primeiros telediscos portugueses. Fundamentais para a divulgação dos primeiros artistas de rock português seriam também os programas de televisão apresentados por Júlio Isidro nas tardes de domingo, sucessores da popular "Febre de Sábado de Manhã", que a Rádio Comercial emitia todas as semanas. A imprensa da especialidade repartia-se por títulos de pouca credibilidade, como "Musicalíssimo" ou "Rock Week", mas seria no semanário "Se7e" que viria a ter lugar a exacerbada polémica entre os críticos Miguel Esteves Cardoso e António Duarte sobre a existência (ou não) do "rock português". A novidade de uma música inspirada no rock mas cantada em português - que não seria tão nova como o mesmo António Duarte veio a provar no livro "25 Anos de Rock de Portugal" - exaltava os media e também o público, surpreendido por uma nova geração que cantava e tocava de outra maneira. "Entre artistas, editores e media, uma série de pessoas com idades entre os 18 anos e os trinta e tal anos davam provas de uma militância que provocou um render da guarda muito curioso", remata David Ferreira.

Miguel Francisco Cadete

ARTIGO PUBLICADO EM 1 DE AGOSTO DE 2003 NO SUPLEMENTO Y DO JORNAL PÚBLICO

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