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Depois de um longo tempo que de acordo com as diferentes perspectivas terá sido de semi-letargia ou de sono profundo, o rock portuga (seja lá ele o que for) ganhou foral de existência nos primeiros anos da década de oitenta. O movimento de euforia gerou mais quantidade que qualidade, mas pelo menos, honrado seja por isso, lançou as bases para a existência de um circuito rock nacional.

Os entusiasmantes anos dourados do rock portuga apanharam desprevenidas as massas que aderiram instintivamente ao fenómeno e se deixaram embalar pelo canto alegre de novas estrelas planeadas à dimensão nacional. Quando o estouro aconteceu, o rock portuga desinchou, revelou a sua verdadeira capacidade e teve que aprender a gerir uma ressaca quem segundo os cépticos, se tem prolongado até hoje. Uma vez passada a euforia, tem-se vivido um período permanente de desânimo implícito ou explicito, apenas rasgado pelos desempenhos de um restrito núcleo de personagens, projectos e propostas, que teima em atribuir sentido à música urbana feita em Portugal.

Essa mesma música urbana portuguesa, tal como hoje a conhecemos, transporta ainda marcas profundas do seu período infantil. Os jovens rebeldes de 81 transformaram-se em ex-músicos (na maioria dos casos) ou em profissionais que não deixarão de sorrir ao pensar nas atribulações de há onze anos. Razão tinha o Zica (dos NZZN) que em Agosto de 81 assim antevia o futuro do rock português: «Se não se perder a adesão da malta, daqui a uns dez anos é bem possível que se façam coisas bem a sério». Dez anos bastaram para eliminar o amadorismo puro da indústria musical nacional, substituindo-o por um profissionalismo esforçado mas nem sempre consequente. A «máquina» vai rotinizando os processos e, aos poucos, originando um modo operativo mais rico de soluções e de eficácia. E, já agora, mais exigente e resistente: se a debilidade de critério de há dez anos não se repetirá jamais, o mesmo acontecerá com a euforia gerada por uma novidade que o não voltará a ser.

Em 80 e seguintes, o rock (ou roque, como também era costume dizer-se) albergava no seu catálogo coisas tão dispares como grupos de baile reconvertidos, vanguardistas convictos, nacional cançonetistas camuflados e verdadeiros rockers em potencial.

Os grupos de baile (que acabaram por sobreviver à «morte» do roque) adaptaram-se com rapidez às necessidades emergentes num segmento de mercado que julgaram próximo do seu. Do Grupo de baile propriamente dito aos CTT (Conjunto Tipico Torreense), desfilaram um sem número de propostas rasas de emoção e de engenho. O Grupo de Baile «chocou» as alminhas mais vulneráveis com «Patchouly», uma cançoneta foleira a pensar nos Dexy’s. Não chegaram a gravar mais nada, embora tenham apresentado um hipotético mas nunca concretizado segundo single, numa das «Febres de Sábado de Manhã», conduzidas por Júlio Isidro, padrinho do roque e divulgador maior parte da expressão «malta da pesada». Os TNT, formados em Dezembro de 1980 no Barreiro, entravam no estilo embora adoptando uma pose mais pesada (influências do tio Julião?) e mais influenciadas pelas marcas industriais da sua terra de origem.

No escalão dos vanguardistas convictos podiam ser incluídos grupos como os Street Kids e os GNR, que funcionaram como bandas-viveiro para algumas das mais gratas experiências da pop nacional. Os Street Kids semearam partes do futuro da música moderna portuguesa (a dispersão dos seus menros seria aproveitada por projectos como os Mler Ife Dada, Lobo Meigo e Rádio Macau, e isto para além das carreiras a solo, como as de Nuno Rebelo e Nuno Canavarro) e aplanaram o solo para algumas das mais interessantes propostas da modernidade que se lhes seguiriam. Deixaram discos como «Trauma» e recados como «Propaganda». Mereciam mais atenção que aquela que lhes foi dedicada. Os GNR, passado o encantamento e feitas as continhas à vida, foram considerados como a primeira grande banda nacional. Depois de dois simpáticos singles de aquecimento («Portugal Na CEE» e «Sê Um GNR»), explodiram esteticamente com «Hardcore» e com o LP «Independança». Aquela que poderia passar por apenas mais uma banda roque era, afinal, muito mais do que issso. «Portugal Na CEE/Espelho Meu» foi também o primeiro single-roque que valesse a pena dos dois lados. Uma curiosidade em discurso directo: «Velvet Underground? Nunca Ouvi?» (Alexandre Soares, 1981).

Rockers potencias também os havia. A começar desde logo pelos UHF e por Rui Veloso. Os UHF não fizeram mais que repetir a formulação idealizada do rocker puro e duro, espécie de «lonesome cowboy» dos tempos modernos, armados de guitarra e poesia. Tão apegados andavam ao passado que por lá se foram mantendo até atingirem o ponto de congelação. Hoje, os UHF não passam de um resquício anacrónico dos seus momentos de glória. Rui Veloso reconverteu-se, tendo o pai do roque dado lugar ao menino querido dos ouvidos da nação. «Chico Fininho» foi o cordão detonante de todas as febres de sábado de manhã e a cantiga mágica que fez de cada possuidor de um instrumento musical, um rocker em potência. Os Xutos & Pontapés, entretanto, habitavam as caves e nem sonhavam com o posterior estatuto de vedetas maiores da música portuguesa. Os Roxigénio, à falta de melhor, teciam o seu próprio elogio e editavam discos insignificantes. Os Iodo puxavam para as teclas, vestiam fatos de plástico por causa da plastificação da sociedade («plastic age», pois claro) e encontravam no manicómio a mais eficaz metáfora para a realidade social envolvente. Frodo e os Tantra iam-se atolando, aos poucos, na incapacidade de concretizar decentemente qualquer ideia que lhes possa ter passado pela cabeça.

No Porto, os Táxi ganharam os seu quinze minutos de fama com «Chiclete» e os Trabalhadores do Comércio divertiam com «Chamem a Policia», ponto culminante de uma carreia isenta de quaisquer atractivos. Os Jafu’Mega tornavam públicas as razões que deles fizeram uma das grandes bandas portuguesas do momento – o seu segundo álbum, homónimo, ainda hoje é um grande disco.

Mais de resto, ficaram os nomes. Muitos e desconhecidos, que já não passam de sombras e de recordações que o tempo apagou. Não deixaram saudades: Banda do Segundo Canal, Seilasié, Opinião Pública, Cheque Mate, Rock & Várius.

Do tempo da deliciosa polémica sobre o (ser ou não ser...) rock português pouco nos resta, tirando a origem da tão propalada crise que, em permanência, lhe tem abalado os alicerces. A nova música portuguesa está em crise? Não faz mal: estamos habituados a viver com ela. Haja música. Nova, de preferência...

Miguel Cunha / Blitz 425

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL BLITZ EM 22.12.1992

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