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Em "Irmão Do Meio", Sérgio Godinho revisita a sua obra em forma de diálogo com uma série de cúmplices. Vinte e cinco anos depois da edição original, "Um Homem Na Cidade", de Carlos do Carmo, vai ser revisitado por músicos de diversos quadrantes. Em "Movimentos Perpétuos", a obra de Carlos Paredes é recriada.

Em paralelo tem vindo a ser reeditada a pop dos últimos vinte anos - Mler Ife Dada, Sétima Legião ou Anamar são exemplos recentes -, e uma série de figuras da música ligeira, como Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, Carlos Paião ou José Cid, têm visto parte da sua obra reavaliada à luz de novas concepções. Um dos casos mais conhecidos é o de Sam The Kid que, em "Beats Vol. I - Amor", utiliza "samples" de música ligeira dos anos 50 e 60.

É verdade que cada um destes empreendimentos tem especificidades e que já existiam sinais nos últimos anos (homenagens a Zeca Afonso e Variações, as compilações "Portugal Deluxe" ou as colaborações entre Cool Hipnoise e Simone de Oliveira ou Ornatos Violeta e Vítor Espadinha) que prenunciavam diálogos com o passado da música portuguesa. Mas é indiscutível: o passado nunca esteve tão presente.

Sempre foi assim, mas desde os anos 80, graças ao advento de novos formatos e ferramentas (CD, remasterização, "sampler"), a consciência do passado começou a ser mais aguda. Descobrimos que passado, presente e futuro podem participar no mesmo fluxo criativo. O assunto continua a provocar discussões infindáveis sobre quem influenciou quem, tornando-se no tema que atravessa os debates em torno da música popular. No entanto, em Portugal, o passado continua a constituir mistério. A geração de 80 parecia fazer tábua rasa dele, argumentando com a marca ideológica e a fraca produção nas décadas anteriores. Parecia ser uma forma de afirmação de uma geração que queria colar-se à Europa cosmopolita e cortar com o Portugal saudosista. Criou-se uma relação estranha, entre a indiferença, o conflito (o surgimento dos Heróis do Mar) e alguns momentos de harmonia.

reconciliação? Hoje, apesar do levantamento sobre a música portuguesa estar por fazer, há uma relação mais saudável. "Sem dúvida", concorda Tó-Zé Brito, figura histórica (pertenceu ao Quarteto 1111), actualmente à frente dos destinos da editora Universal. Há 30 anos, quando era músico, "era impensável" a sua geração participar num projecto que tivesse algo a ver com o passado. "Hoje, a credibilidade e a obra do Zeca Afonso, Paredes, Carlos do Carmo ou Godinho é mais sólida que a dos artistas dos anos 40 ou 50."

Com efeito, a vontade de participar em operações como "Movimentos Perpétuos" não pode ser dissociada dos músicos visados, refere Henrique Amaro, homem da rádio e coordenador do projecto: "Esta geração tem interesse em conhecer, mas é discutível se tem ligação forte com o passado. Não podemos esquecer que estas manifestações são em torno de nomes consensuais, como Zeca ou Paredes."

O projecto, de 1994, "Os Filhos Da Madrugada", que reuniu músicos à volta da obra de Zeca Afonso, foi exemplar do ponto de vista da (re)descoberta de uma obra, recorda Godinho. "No princípio dos anos 80 esqueceu-se o que existia para trás e 'Os Filhos Da Madrugada' chamou a atenção para um património. Foi uma viragem, apesar da obra do Zeca continuar ignorada na totalidade. Muitos dos intervenientes ouviram-no pela primeira vez e os ouvintes mais novos foram comprar as edições originais. O caso do Paredes também é interessante porque a sua música esteve em vias de desaparecer. Agora parece existir um movimento inverso, que é o de reconhecer patrimónios que são estimulantes - são patrimónios vivos."

Mas a história continua por contar. Existem poucos documentos que nos permitam olhar para trás com critério para se reavaliar o passado. Mas há projectos em marcha que tentam inverter o rumo. Amaro trabalha num documentário para televisão sobre a história da pop portuguesa e Nuno Galopim, jornalista do "Diário de Notícias", prepara uma compilação de canções pop-rock com 20 anos. "São suportes que vão ajudar a que esse passado possa ser consultado", diz Amaro. "Mesmo do ponto de vista bibliográfico estamos agarrados ao livro do António Duarte ["25 anos de Rock n'Portugal!"] que foi lançado há 23 anos, e que retrata quase 50 anos de música pop-rock. A grande história da música portuguesa está por fazer, apesar de já existirem histórias individuais retratadas."

Se os mais novos parecem ter boa relação com algumas figuras do passado, o inverso também é verdade. "Dos anos 80 para cá nota-se mais solidariedade entre os músicos. É bonito ver Carlos do Carmo dizer que Sam The Kid é genial. São coisas que permitem a reconciliação entre gerações, o que há 20 ou 30 anos era impensável", diz Tó-Zé Brito.

Quem tem procurado o contacto com músicos mais novos é Godinho, que refere que o "reconhecimento mútuo é uma das conquistas práticas dos últimos 10 ou 15 anos". Mas serão estes sintomas um sinal de reconciliação com a nossa identidade?

A questão é polémica até porque ninguém sabe o que isso é. No entanto, aquilo que é aceite, pelas pessoas, como sendo música de características portuguesas faz vender. O exemplo mais recente é a nova geração de fadistas que tem apelado a um público novo que passou ao lado das clivagens ideológicas que marcaram os discursos em torno do fado. "Quem está a comprar estas novas abordagens do fado são portugueses que redescobrem a sua música. Não é por acaso que o que tem tido sucesso lá fora - dos Madredeus à Mariza - tem qualquer coisa de português em termos melódicos e harmónicos. Desse ponto de vista está a redescobrir-se uma certa portugalidade na nossa música e o fado é um exemplo. As novas gerações estão a despertar para isso, independentemente de uns cantarem em inglês ou português ou de fazerem música ligeira, hip-hop ou rock. Por outro lado, está a existir cruzamento entre estilos de música e é interessante ver as novas gerações fazê-lo", diz Brito.

easy-listening. No entanto, colocar elementos do passado em cenários modernistas, apesar das tentativas efectuadas (dos Sétima Legião a Megafone), ainda não é vulgar. No tema "Isto", Pedro Passos, DJ e produtor da editora Nylon, cruzava batidas de house com João Villaret a recitar Pessoa: "Lá fora, existiu uma recuperação do passado, devido ao 'easy-listening', que chamou a atenção para material em bruto apetecível para remisturas ou para samplar. Em Portugal, foi diferente, até pelas características da música portuguesa. Nos últimos 10 anos ouvi falar de tentativas de mistura entre trip-hop ou house com fado, mas é difícil, porque é uma música complexa. Por outro lado, existiam obras de nomes como o Paredes, o Afonso, o José Mário Branco ou o Fausto que apetecia pegar, mas o seu peso era tal que era assustador, e difícil."

Passos fala de um contexto internacional que permitiu que uma caixa de pandora se abrisse. De repente, todo o passado foi reavaliado colocando em causa certezas adquiridas. Quem não se recorda das séries "Ultra Lounge" ou "Ohm: The Early Gurus Of Electronic Music 1948-1980", que desvendavam segredos escondidos do "easy-listening" ou das electrónicas? Em Portugal, Pedro Tenreiro (coleccionador de discos, DJ, mentor do projecto Mr Spock e um dos responsáveis pela editora NorteSul) foi um dos primeiros arqueólogos a desenterrar música portuguesa, à margem das figuras de referência, com as compilações "Portugal Deluxe", que revelavam "pérolas escondidas da música ligeira".

"Foi curiosidade. Eu e o Rui [Miguel Abreu] tínhamos uma paixão por 'easy-listening' e reparámos que nos chegavam compilações de todos os países europeus e interrogámo-nos se não haveria músicos em Portugal que tivessem desenvolvido actividades semelhantes. Tínhamos pistas, como o trabalho do maestro Thilo Krassman, resolvemos explorar o arquivo da Valentim de Carvalho e havia bastantes coisas. Foi óptimo dar vida nova a coisas que estavam em arquivo. E existiram reacções. Os Stealing Orchestra queriam remisturar temas da compilação e houve um embrião para se fazer uma compilação com releituras de projectos novos. Não faltavam bandas interessadas. É natural, não há música futura sem explorar a música passada."

Apesar dos esforços, a maior parte dos comentários assinala que existe muito por fazer. "Os Ananga Ranga, por exemplo, têm milhares de coisas que podem ser recuperadas. O próprio Paulo de Carvalho... Foi reeditado um álbum do Duo Ouro Negro, 'Blackground', que contém uma pérola, 'A dança do robalinho', que saiu na Orfeu mas podia ter saído na Blue Note. Devem tentar recuperar-se trabalhos que resistiram ao tempo e que estão esquecidos pelo facto de pertencerem a artistas que não são referência", afirma Tenreiro, enquanto Amaro recorda a Banda do Casaco, "com trabalhos injustamente esquecidos", ou Jorge Palma, alguém que tem sido recuperado nos últimos anos por músicos novos. "Acabei de ouvir o disco dos Toranja e, mais do que a presença dos Coldplay ou dos Radiohead, é o Palma que lá está."

Uma coisa parece certa: já não temos receio de olhar para nós próprios. Seja para aceitar, assimilar, recusar ou propor alternativas. O passado deixou de constituir estigma, como refere nas entrelinhas Godinho. "Em determinada altura havia mais atenção ao passado. Depois, desapareceu. Agora, está a regressar e isso parece-me salutar porque uma cultura sem memória torna-se estúpida. É menos preconceituoso o tempo que vivemos, mesmo correndo o risco de poder ser fenómeno de moda. Mas não interessa. Tudo vai ao sítio."

Talvez Carlos Paredes tenha razão quando diz na introdução de "Viva!", o tema recriado por Sam The Kid para "Movimentos Perpétuos": "Seria necessário voltar a repicar esses discos para poder avaliar bem coisas que talvez nos esclarecessem e nos abrissem novos caminhos". "Novos caminhos, os caminhos mais actuais, novos caminhos, uma orientação nova", diz, aludindo, quem sabe, ao facto de a música do presente e do futuro não poder ser construída sem memória.

Vítor Belanciano

ARTIGO PUBLICADO EM 27 DE JUNHO DE 2003 NO SUPLEMENTO Y DO JORNAL PÚBLICO

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